UMA AFRONTA AO ESTADO LAICO - Por que você está tão bravo, Mike? Era uma noite fechada, ameaçando chuva. Não pretendia alongar a conversa, mas o Mike parecia preocupado, chutando alguns brinquedos de sua casa, olhando para mim com cara de poucos amigos. - Ora, você não tem visto nem ouvido nada sobre um tal acordo entre o governo brasileiro e o Vaticano? - Ouvi alguma coisa... E daí? - E daí? Você parece besta? - Também não precisa ofender, cara! Que foi que eu te fiz? – perguntei já com um pé atrás de quem ameaça ir embora e deixar o outro a falar sozinho. - Você não me fez nada, mas esse tal acordo está mexendo com meus nervos... E sem que me pudesse dizer mais nada, Mike disparou: - Admiramos ambos ao Lula, o seu governo e tudo o mais. Temos apoiado quase tudo o que ele faz. Mas, isso? - Isso... isso o quê? – gaguejei, prevendo chumbo grosso. - O Estado brasileiro é laico ou não é? - É, claro que é... - Então, não tem que abrir as pernas para o lobby da Igreja Católica Apostólica Romana, não é mesmo? Esse acordo que tramita no Congresso – e que está em vias de ser aprovado – é um acinte ao estado laico do Brasil. Concede ao Vaticano privilégios absurdos. Não é um acordo entre estados soberanos, porque o Vaticano não é nenhum estado soberano que tenha algum tipo de prestígio internacional ou de poder econômico com o qual precisemos firmar acordos. Aquilo lá é apenas uma prelazia papal e nada mais. Tem o prestígio que o papa da hora granjeie ou amealhe pela sua posição de líder religioso. Nada mais. O Brasil, se firmar mesmo esse acordo com “sua santidade” (e ele pronunciou “sua santidade” com o máximo de ironia que pode um macaquinho atrevido e ateu pode ter), estaremos inaugurando uma “democracia teocrática” das mais vagabundas, em detrimento de nossas leis constitucionais... Isso é um absurdo. Esse tratado é inconstitucional. Você devia mandar toda essa gente ir lamber sabão, no seu blog... Você está marcando touca, e todos os brasileiros também... Eu não posso concordar com tal barbaridade! Quer saber? Vou dormir e vocês, idiotas, que... que... que se lasquem... Tenho certeza de que ele queria dizer uma outra palavra bem mais contundente do que o “que se lasquem”, mas como não é de seu feitio usar palavrões, recolheu-se à sua casinha e foi dormir, deixando-me com cara de idiota e sem ter tempo de responder-lhe que, sim, eu concordava com ele: ESSE ACORDO COM O VATICANO NÃO PODE SER APROVADO E, SE O FOR, DEVE SER DECLARADO INCONSTITUCIONAL PELO SUPREMO (Supremo? Helàs!).
Escrito por Isaias Edson Sidney às 17h04
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