163. Tenho plena consciência de que tudo quanto eu escrevi até agora constitui um rio caudaloso, uma pororoca, sobre a qual você, leitor, pode surfar ou, então, na qual você pode mergulhar e contemplar e, até mesmo, pescar os peixes que são arrastados por suas ondas, ou, ainda, naufragar para sempre e abandonar o grande rio que, um dia, chegará ao oceano e, embora sejam volumosas as águas desse rio, não conseguirá interferir, a não ser minimamente, na temperatura, na cor e no gosto da grande salmoura. Mas será apenas o começo. Outros rios hão de vir e despejar tantas águas que, numa alvorada qualquer, até o oceano se sentirá incomodado. Nesse dia, o obscurantismo começará a ser vencido e o homem que emergirá desse oceano de barbárie será, afinal, o além do homem.
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Escrito por Isaias Edson Sidney às 11h58
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162. A construção do edifício deísta foi um longo processo de construção de um discurso. Somente discurso. O homem se deixa levar pelas palavras, mais do que pelos fatos. As únicas provas da existência dos deuses ocorreram no terreno da pseudo-lógica, através de argumentação complexa, onde o discurso substituiu e subverteu a lógica dos fatos e, tirando a comprovação do terreno da ciência ou, pelo menos, do experimentalismo, para o transcendente, obteve uma das mais fantásticas elucubrações humanas. Esse majestoso edifício contou com a base filosófica grega, Sócrates, Platão, Aristóteles e todos os construtores de transcendência, para, através da sagacidade de Tomás de Aquino, obliterar de vez o pensamento racional, levando o homem pelos caminhos da fé cega, da crença absoluta. Para isso, contou, é claro, com as próprias necessidades humanas de superar suas dores, suas decepções e, acima de tudo, com a vontade humana, demasiado humana, de imortalidade. Todo esse edifício podre vai ruir um dia. E quando isso acontecer, o homem ficará completamente desnudo diante de si mesmo. Trapezista que se vê solto no espaço sem rede, o alumbramento da verdade cega as mentes não preparadas para a verdade. Felizmente, como já afirmei anteriormente, esse processo de destruição do discurso deísta deverá levar séculos, talvez milênios. Só espero que não venha tarde demais.
Escrito por Isaias Edson Sidney às 15h19
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