147.  Pode-se perguntar: o que colocar no lugar do deísmo? Nada. Não se coloca nada no lugar do deísmo. Quando se deixa de acreditar em deuses, não existe nenhuma outra crença ou filosofia para se colocar no lugar. Porque o ateísmo não é uma filosofia, é apenas um conceito anti-deus, anti-criacionismo. O ateu não é um filósofo, é apenas alguém que não acredita nas bobagens deístas e criacionistas. Nada mais. Por isso, não há pregação pelo ateísmo, não há e não pode haver sociedades atéias ou templos e quaisquer outras besteiras desse tipo. Um ateu não sai por aí a pregar o ateísmo, porque não há o que pregar, o que defender. A crença em deuses é somente uma crença e nada mais. Ou seja: depende daquele ingrediente imponderável, inatingível e indiscutível chamado fé, a criação mais emblemática do deísmo. Acreditar em deus é um ato de fé. O problema é que esse ato de fé se transformou em religião, em filosofias, em metafísicas absurdas e excludentes. Por isso, o crente é um ser absurdo. Combater essa estupidez, sim, é um dever do ateu e de todos os que pensam um pouco além da estupidez humana em sua busca insana por eternidade, por mistérios e por milagres. Mas não há elementos de troca. O ateu não tem nada a oferecer ao crente para substituir sua fé, apenas a liberdade. Liberdade de pensar e buscar a sua própria Weltanschaaung, seu próprio ideário e seu próprio sistema ético.

 Escrito por Isaias Edson Sidney às 11h39
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146.  As três virtudes teologais: fé, esperança e caridade. A fé se constitui na forma mais acabada de ignorância, do não querer ver o que está diante dos olhos, de não se interessar pela natureza e por suas leis, enfim, a forma mais completa de cegueira intelectual. A fé destrói qualquer possibilidade de raciocínio lógico, e faz de quem a pratica um mero joguete nas mãos dos deístas estúpidos, ao estupidificar o indivíduo e torná-lo escravo de crenças absurdas. A esperança anestesia o presente e torna as pessoas impassíveis diante da vida e de suas vicissitudes. É uma forma de passar a mão na cabeça das pessoas e entregá-las aos desígnios divinos como cordeiros diante do açougueiro. Constrói apenas utopias excludentes. Já a caridade constrói em torno do ser que a pratica uma aura de santidade que esconde, realmente, o orgulho por ser diferente e estar mais próximo de deus. É como se se dissesse: olhem, eu sou melhor, eu sou santo, eu estarei diante de deus, porque sou caridoso, ajudo as pessoas. A arrogância do humilde e daquele que se faz humilde destrói qualquer possibilidade de diálogo racional, como, aliás, o fazem também as demais virtudes. O homem virtuoso desumaniza-se em nome de seu deus, o que o torna um monstro inútil para o desenvolvimento da humanidade. A humanidade não precisa de homens assim, mas de pessoas que tenham visão ética de respeito às diferenças, à vida e à natureza.

 Escrito por Isaias Edson Sidney às 11h33
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145. Vingança. Quem com ferro fere com ferro será ferido. Olho por olho, dente por dente. E assim, cristalizada em nossa mente através de inúmeros adágios e crenças, a vingança atormenta o coração do homem. Não existe o mal, o mal absoluto, criação metafísica para nos iludir nas crenças de deuses cruéis e seus inimigos poderosos. Mas existe, sim, o mal praticado diariamente, como formigas que picam e fogem, como espinheiro em canteiro de flores. O homem tem o dom de fazer o mal. Não se contenta em viver, apenas, a sua vida. É preciso espicaçar o semelhante. É preciso pisar, esfolar, matar. E rejubila-se com isso. E goza o prazer de ver o desafeto na pior situação possível. Há, em alemão, uma palavra que resume o sentimento mesquinho de ver o pretenso inimigo na situação mais trágica, que explica o júbilo de não apenas vencer e estar bem, mas também ver o outro humilhado, despedaçado, é a alegria com a desgraça alheia: Shadenfreude. Os deuses criados por todas as religiões humanas até agora são todos adeptos da vingança. Se não estamos com eles, estamos contra eles. E para todos os inimigos, o fogo eterno, as desgraças, o sofrimento. Não há meio termo. E rejubilam-se com a destruição de cidades inteiras, porque nelas há pecadores. Shadenfreude. Vingança pura. E a perpetuação da barbárie. Nossa sociedade dita cristã construiu-se assim: na idéia da vingança. As demais sociedades deístas também. Porque deus é Shadenfreude. Se chove demais é porque há pecadores que mereciam as enchentes, a destruição de suas casas, esquecidos de que se há ali pecado é o pecado da estupidez em desafiar as forças da natureza. Se há seca é porque os deuses assim o querem, para punir aqueles que não os seguem, não se sacrificam, esquecidos de que o único sacrifício dos que convivem com seca está em aceitar a condição de miseráveis, sem se revoltar contra aqueles que lucram com a seca e espezinham os pobres para continuarem enriquecendo. É dentro do princípio da vingança que se escrevem muitas de nossas leis penais. A intenção não é punir o criminoso, afastá-lo do convívio dos demais, por ser um indivíduo perigoso, mas vingar-se dele, jogá-lo no mais fétido calabouço e deixar que seja corroído pelos vermes, como se essa vingança tivesse o condão de fazer voltar à vida aqueles que ele assassinou. Puro Shadenfreude. Então, quer-se a pena de morte, o espetáculo da morte transformado em teatro estúpido de punição, ou melhor, de vingança, para gozo dos sádicos de plantão, dos deístas de carteirinha, dos fundamentalistas de todos os credos. Corta-se a mão ao larápio, espanca-se em praça pública o desafeto, apedreja-se a adúltera, tudo como forma espúria de vingança, em nome do deus da barbárie. Os animais matam para comer, para se alimentar; o homem, por prazer ou por vingança. E perpetua a barbárie. Pode-se invadir um país para se vingar das atrocidades de seu governante e cometer, assim, atrocidades maiores: Shadenfreude. Como se pôde jogar sobre a cabeça de milhares de civis uma bomba atômica, como forma de punir todo um país pelo erro de seus estúpidos governantes: Shadenfreude. Como se pôde construir dezenas de campos de concentração e lá jogar milhões de pessoas e depois assá-las em fornos crematórios, como forma de se vingar contra a prosperidade de um povo que tem no comércio e no lucro a fonte de sua própria existência e, mais, como forma de punir esse mesmo povo por ter cometido e cometer ainda tantas outras atrocidades: Shadendreude. Pôde-se e ainda se pode destruir tribos inteiras de indígenas, simplesmente porque não aceitam nossas crenças ou porque têm costumes diferentes dos nossos: Shadenfreude. E pode-se mandar para o inferno aqueles que fornicarem nus, embora sejam cônjuges devidamente unidos pelas leis idiotas de profetas mal amados ou mal interpretados: Shadenfreude. E a barbárie estupidifica a mente do homem. E perpetua-se.

 Escrito por Isaias Edson Sidney às 13h36
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144. A estupidez humana não se resume às crenças absurdas. Também se cristaliza na vida prática, quando insiste em arrostar as forças da natureza. Paga alto o preço de construir, por exemplo, suas moradias à beira de rios que sobem e a tudo inundam, ou perto de vulcões que, a qualquer momento, entram em erupção, ou, ainda, em continuar ignorando os movimentos naturais do clima, dos ventos, das marés, enfim, em não perceber que vivemos todos num planeta em constante mutação e que temos de nos conformar a isso ou morremos. A lei da evolução é cruel, mas sábia: adapte-se ou desapareça.

 Escrito por Isaias Edson Sidney às 13h17
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143. A condição natural do homem, apesar de todos os protestos que isso possa gerar, é o ateísmo puro. Pensar num ser criador constitui-se num artifício tão falacioso quanto pensar que o mundo é ilusão. O criacionismo estúpido imagina a intervenção de um ser grandioso, onipotente, onipresente e imensamente sábio, porque não sabe olhar o universo. A cegueira não permite aos criacionistas contemplar o mundo como ele é e isso os torna imbecis para a realidade, precisam apegar-se a salmos e rezas, a livros idiotas escritos há centenas ou milhares de anos, por homens muito mais ignorantes do que somos hoje, para que esses livros ditos sagrados lhe digam como o mundo funciona. E como não há relação alguma entre aquilo que está escrito nos livros sagrados e a realidade, seu intelecto fica obnubilado pela ignorância de centenas ou de milhares de anos, gerando todo tipo de preconceito e estupidez contra os demais seres que os rodeiam. A pretensa aura de sapiência que se instaura em torno de papas, gurus, aiatolás, rabinos ou pastores de qualquer espécie devia ser inscrita nos tribunais internacionais de crime de lesa-humanidade. São monstros travestidos de homens caridosos, porque acredito que muitos deles têm alguma percepção de que o que pregam não passa de fantasia para enganar trouxas, mas continuam assim mesmo a repetir as velhas fórmulas de seus antepassados, ou por covardia, ou por estupidez, ou porque não querem perder a sinecura de que vivem e com a qual enriquecem ou se tornam poderosos. Multiplicam a estupidez simplesmente porque são cegos e surdos à voz que vem da natureza. Mas dizem-se sábios e acreditam-se sábios à força de pensar que o são realmente. Sua desumanidade torna-os, aos criacionistas e ditos delegados de deus, a pior espécie de homem, já que são antinaturais e anti-natureza. Para eles, o que importa é a consciência tranqüila diante daquilo que chamam de deus, não importando que, para isso, muitos morram ou sejam mortos.

 Escrito por Isaias Edson Sidney às 13h44
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142.  A metafísica afastou o homem da realidade. A religião embruteceu-o. Não há como saber o que veio primeiro: se a metafísica ou a religião. Mas são ambas dois sistemas de pensamento que obscureceram a mente humana para a realidade, para a verdade. Suas metodologias enganosas, baseadas em sentimentos e emoções, na idéia de que é preciso crer cegamente numa supra-realidade divina ou anti-humana, desviaram o pensamento do homem para aquilo que realmente importa em sua passagem pela Terra: a melhor forma de adaptar-se à natureza e viver harmonicamente com ela. Não se pode ter nenhuma complacência nem com a metafísica nem com a religião: são sistemas mórbidos, que pregam a desumanização do homem, sua entrega a um deus ou a uma impossível vida além da vida como solução para problemas mentais, emocionais ou, até mesmo, físicos, num processo enganoso de falsos milagres, aprofundando, com isso, a miséria humana, com o sentimento de culpa e idéia da redenção, o que torna desculpável todo e qualquer crime contra o próprio homem e contra a natureza. O pensamento religioso pode parecer uma espécie de bálsamo para momentos de dor profunda, mas é apenas uma fuga, um meio de enganar a dor por algum tempo, o que exige que o homem desvalido passe a gastar cada vez mais as suas energias na adulação da divindade em busca da cura, amortecendo-o para outras atividades mais lúcidas. O homem não precisa da metafísica e da religião. Sua destruição, se fosse isso possível, embora desejável, não causaria mais prejuízo do que tem sido a sua existência para a humanidade. Eles, os religiosos de todos os credos, os defensores da metafísica estupidificadora, nunca tiveram sentimento de humanidade, apesar de todos as falsas juras de amor, de paz e outras falácias que prometem. No fundo, o que resta de qualquer religião é o sentimento egoísta do lucro de seus dirigentes, a hipocrisia que vende qualquer produto, desde que bem embalado em invólucros de falsas promessas. Trocaria a vida de milhares de homens ditos santos por qualquer outro ser que tenha uma vida ética e não tenha tentado enganar as pessoas com pretensas visões místicas ou estúpidos milagres de prestidigitação. Não vale a vida desses pseudo-heróis o mal que eles causaram ao desenvolvimento intelectual da humanidade. Sua estupidez atravancou de lixo o caminho do pensamento científico e racional, com a imposição de idéias absurdas e preconceitos infelizes. O homem, quanto mais religioso, mais egoísta: acha que todos devem compartilhar do mesmo estado de estupidificação mística em que ele se encontra e se arvora missionário de uma causa idiota, a tentar convencer com argumentos falaciosos e ilusões criadas em suas mentes doentias a uma humanidade incrivelmente crédula e ignorante, certa de que presenciou milagres ou é capaz de fazê-los. O culto a imagens e objetos e a transferência para eles de poderes mágicos torna o homem religioso um ser desprezível em termos intelectuais, digno, no entanto, de total compaixão por parte de quem tenha um mínimo de senso crítico. Sob o manto da liberdade religiosa e de pensamento, esconde-se um mundo tão imensamente fantástico de falsificação, de empulhação e de extorsão, que se pode dizer que a religião se tornou o mais festejado e promissor negócio da Terra, movimentando cifras muito maiores do que o próprio sistema capitalista é capaz de fazer girar, o que torna a religião uma praga impossível de ser combatida e erradicada. Qualquer tentativa de impedir que seitas se organizem como quadrilhas para roubar o povo esbarra na gritaria inconseqüente dos que defendem seus negócios com o argumento de liberdade religiosa, como se se pudesse dar liberdade à erva daninha para destruir as plantações. Por isso, não acredito na erradicação do pensamento religioso, essa praga arraigada na memória do homem, de forma radical nem em curto nem em longuíssimo prazo. Mas acredito que um processo educacional com menos influência das estúpidas teorias criacionistas e acrescido do desenvolvimento do pensamento científico possa diminuir pouco a pouco a intolerância, a estupidez e a ignorância que se escondem por trás de todo pensamento metafísico ou religioso.

 Escrito por Isaias Edson Sidney às 12h06
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