62. Se não existem categorias de bem e mal, como punir o assassino? Essa pode ser a pergunta que não quer calar. No entanto, não há por que duvidar da punição àquele que comete crimes contra a natureza. Embora a natureza humana seja, ainda, cruel, porque não nos livramos de nosso lado instintivo de preservação da vida através da destruição de outro ser, temos que fazer o esforço necessário para superar esse instinto e ascender como ser racional, para nos convencer de que provocar a morte de outro ser humano é um crime contra a nossa atual natureza e, portanto, deve ser condenado sob todos os pontos de vista como o crime mais cruel e desumano. Atingir esse estágio de evolução é proscrever da face da terra o crime de morte, as lutas e guerras, as armas e seu poder de destruição. O homem precisa deixar de ser o seu próprio predador. Precisa deixar de cultuar os heróis guerreiros e passar para uma fase de total condenação de todos aqueles que construíram reputações em cima da morte de outros seres humanos. São totalmente absurdos homens como os césares romanos ou como Carlos Magno ou Napoleão. Deverão ser considerados, no futuro, numa civilização mais avançada, como loucos, imbecis ou homens cujo exemplo não contribuiu para o aperfeiçoamento da raça humana. Deviam, desde já, ser execrados nos livros de história, nos ensinamentos a nossos filhos, e não servirem de exemplo de vidas gloriosas. São apenas loucos assassinos e nada mais. Seus atos são fruto de imbecilidade ou de loucura. Seus feitos devem ser jogados na lata de lixo da história, como seres desprezíveis que se aproveitaram de momentos únicos da história para revelar o lado monstruoso da natureza humana, o lado da conquista sem limites, do assassínio frio e sem motivos. A guerra, sim, é o ato mais doloroso da espécie humana, o lado mais negro da dura luta do homem para se tornar mais civilizado. Não há, no entanto, nessa condenação tácita do ato guerreiro o julgamento moral de que ele representa o mal. A guerra não é o mal e a paz, o bem. Apenas julgamos a guerra um ato desprezível, inventado pela incapacidade humana de buscar, no atual estágio de evolução, o verdadeiro equilíbrio que lhe possibilite compreender as diferenças e viver em harmonia com outros seres humanos. E na raiz de todas as lutas, de todas as guerras, está sempre o estranhamento pelo diferente, a não aceitação do que parece ameaçador à primeira vista, como hábitos distintos, cor da pele ou um jeito diferente de olhar. O homem não compreende que não precisa rosnar e defender o seu território com garras (ou armas), diante da aproximação do estrangeiro, como o faz o animal acuado diante do desconhecido. O homem possui um grau de inteligência que lhe permite avaliar situações e uma capacidade que nenhum outro animal possui: a comunicação, para expor suas dúvidas e ouvir as razões do outro lado. O encontro entre desconhecidos, sejam indivíduos ou povos, não podia se transformar em tragédias anunciadas como aconteceu entre o europeu e os povos americanos, por exemplo. Somente a arrogância de um e o temor, confundido com a fraqueza, de outros pôde determinar um dos maiores crimes já perpetrados contra a raça humana e já cometidos por um povo contra outro. O preconceito e a ignorância nunca foram elevados a tal potência, como no encontro entre o cristão e o pagão, em terras da América. O olhar que viu o ameríndio não soube reconhecer o igual. E por não reconhecer, destruiu civilizações, matou milhares de seres humanos e contaminou outros milhões com o vírus de seu ódio, muito mais pernicioso do que os vírus reais que ajudaram a dizimar, como a influenza, milhões de outras vidas ao longo do tempo. A dominação selvagem do europeu repetiu-se em outras terras, como na África, sem que a lição anterior fosse devidamente apreendida. E se outros contatos houver, novos genocídios ocorrerão. Assim é o homem. E assim não devia ser o homem. No entanto, a compreensão dessa natureza selvagem podia ter um olhar um pouco mais ameno, se não tivesse o homem se vangloriado de suas crenças, de suas filosofias e de seus deuses. Crenças, filosofias e deuses que, segundo os livros ditos sagrados, os ensinamentos ditos superiores e os deuses ditos benfazejos deviam ter tornado o homem mais cúmplice de si mesmo, mais humano dentro de suas monstruosidades, mas compassivo diante do outro. Por isso, a minha revolta diante de todo esse falso conhecimento adquirido até agora pelo homem. Não há niilismo em minhas palavras, mas nojo em relação a todos esses princípios deístas fundados na exclusão de palavras infames, como as dos deuses que dizem que quem não está com eles está contra eles. Temos, todos os homens lúcidos, de combater sempre essa praga que é o deísmo, como, isso sim, um dos maiores males da humanidade, como um desvio de rota da evolução humana, para poder (quem sabe, um dia?) vislumbrar uma nova linha de pensamento e de civilização para o homem, liberto de suas malditas crenças e superstições, quando, então, o bem o e mal deixarão de ser categorias absolutas e serão jogados para sempre no esquecimento ou no folclore. E a lata de lixo da história agradecerá, se contiver todos os livros ditos sagrados, todos os deuses ditos benfazejos, todas os ensinamentos ditos superiores e todos os heróis com suas mãos pingando sangue.
Escrito por Isaias Edson Sidney às 15h35
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61. Não acredito na existência do mal. Tampouco do bem. São categorias criadas pela mente adormecida pelas crenças deístas. Se não houver o mal, não há necessidade de um deus para opor-se-lhe. O diabo precisa de deus e deus precisa do diabo. São faces da mesma moeda. Criações necessárias não ao equilíbrio de uma pretensa luta entre eles, mas necessárias para manter a mente humana ocupada em servir a um e a exorcizar o outro, conforme o lado da balança em que se coloque a imbecilidade humana. Na natureza, essas duas categorias não existem. As forças que a regem, apenas atuam. A enchente do rio não tem a pretensão disso ou daquilo. Ela apenas ocorre, porque é de sua natureza ocorrer. O vulcão explode sem intenção alguma, a não ser porque existe para explodir como conseqüência de forças poderosas no interior da terra, que devem equilibrar-se por alguma lei que não conhecemos muito bem. E assim, com todos os fenômenos naturais: não há bondade ou maldade, apenas cumprem leis que os homens vão pouco a pouco descobrindo. Também no reino animal, o leão não mata o cervo porque lhe quer mal, mas o cervo é, para o leão, apenas a comida que o mantém vivo. Há uma lei natural sob cada acontecimento na natureza. O homem, dentro desse mundo de absoluta neutralidade, por um capricho da própria natureza, ganhou a capacidade de interpretá-la. E, ao fazê-lo, sempre o fez mal. Ao ganhar consciência e, por extensão, inteligência, não soube primitivamente interpretar os acontecimentos como tais. Precisou dar-lhes conteúdos que eles não têm, ao não entender as causas de suas ocorrências. Assim, criou, sem querer, a metafísica. O mundo além do físico. E povoou esse mundo de seres imaginários. Quando nos referimos aos deuses do olimpo grego, tenho a impressão de que muita gente imagina que verdadeiramente esses seres conviviam diariamente com os homens e que se podia encontrar com eles nas ruas e estradas, ou nos templos, aonde acorriam os filósofos, os governantes e até mesmo o homem comum, para falar com eles e ouvi-los. As desavenças e lutas entre eles são relatadas com tanta “humanidade”, que parecem velhos conhecidos que viveram, amaram, sonharam e um dia morreram, quando a cultura grega deixou de ser o que era. Afinal aí estão os relatos dos poetas, dos filósofos e dos dramaturgos e as estátuas e pinturas para provar sua existência. E esses seres inventados podiam trazer o bem, quando a chuva apenas contribuía para matar a sede e fazer crescer as plantas, ou trazer o mal, quando a chuva inundava pastagens e plantações e destruía e matava homens e animais. O mundo categorizava-se, dividia-se, para poder ser compreendido ou controlado. Compreender e controlar as forças da natureza dependia, então, dos seres imaginários, dos deuses, enfim dos donos de todas essas forças. E como eles eram irascíveis, precisavam ser adulados com palavras ou sacrifícios. Uns, no entanto, atendiam. Outros, não. E a noção de bem e mal se instalou na mente humana. Não para sempre. Até hoje. Não conseguimos, ainda, viver sem essa dualidade. Porque, afinal, praticamente tudo na natureza que nos rodeia e que enxergamos tem dois componentes, a partir do próprio homem: se tem um só cérebro, há dois hemisférios; se há um só corpo, há dois braços, duas pernas etc. Pensamos dualmente. Não é à toa que o computador tem uma linguagem dual. Sempre buscamos o outro, para nos completar. Na vida animal, incluindo o homem, o casal constitui a situação dita normal. O sexo masculino e o sexo feminino. Essa forma dualista de pensar ocasiona, é claro, inúmeros problemas: rejeitamos ou temos a tendência de rejeitar tudo o que contraria essa “normalidade”. Daí ao preconceito, é um pulo. O diferente representa o mal ou a sua manifestação e, por isso, deve ser destruído: o índio, que era diferente para o europeu; o negro, que é diferente para o padrão branco que se diz prevalente; o homossexual, que contraria o modelo... Enfim, categorizar o mundo em mal e bem está na fonte de muitas incompreensões, de muitas guerras, de muitos genocídios. O preconceito, fruto do estranhamento, somente será totalmente superado, quando o homem deixar de dividir o mundo, mesmo que inconscientemente, nas categorias de bem e mal.
Escrito por Isaias Edson Sidney às 14h00
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60. A genética não é apenas a ciência do futuro, mas será através dela que o homem se libertará das superstições que fazem de sua história um misto de horror e vergonha. A genética libertará o homem dos deuses, ao confirmar para todos a origem biológica da vida, sem intervenção de forças divinas. Deus está no gene. Ou, melhor, deus é um gene. A cadeia da vida revelará o passado do homem e descortinará seu futuro. Ainda provocará muita polêmica, mas sobreviverá ao obscurantismo que deseja engaiolar a genética, mas as experiências laboratoriais, feitas dentro de uma ética humana e não divina, acabarão prevalecendo e propondo para o homem dilemas até então impossíveis. Um desses dilemas será a intervenção humana para controle de doenças, de deformidades e, conseqüentemente, da melhoria do código genético da humanidade, o que contribuirá para acelerar o processo evolutivo da raça humana. Um outro dilema consistirá na adequação da população à capacidade do globo. Um controle populacional, eugênico, será posto em prática, como política de salvação do gênero homo sapiens, o que vai gerar, no começo muita discussão e polêmica, mas será a única saída para manter as condições da Terra favoráveis à existência do homem. O globo não suporta níveis elevados de população. Não faz sentido termos uma humanidade de dez, vinte ou mais bilhões de pessoas, com uma quantidade insuportável de miseráveis e famintos por causas estruturais, por ser impossível haver produção suficiente de alimentos e de condição de vida minimamente decente. Uma visão objetiva, não deísta, deverá prevalecer, para que a explosão populacional seja contida. Não se trata de adotar políticas de controle populacional para acabar com os miseráveis, mas para acabar com a miséria. Os recursos são escassos ou finitos e deles depende a sobrevivência genética do homem. Não adianta, nesse caso, nenhum tipo de raciocínio ideológico. Não haverá paz, nem democracia, nem melhoria de condições de vida para todos, com uma população que exceda os recursos possíveis de serem produzidos. Isso é lógica, não ideologia. Porque o homem compreenderá que não há possibilidade de igualdade absoluta, de que todos os homens tenham exatamente as mesmas probabilidades de vida. Também não consentirá que permaneça o atual estágio de capitalismo selvagem. A distribuição melhor da riqueza, numa espécie de socialismo não-utópico, realizado dentro de leis mercadológicas mais humanas, tornar-se-á o caminho único para a própria sobrevivência do homem. Se esse sistema atual permanecer por muitas décadas, aprofundando as diferenças, o risco de levantes dos miseráveis contra os mais ricos fará das guerras anteriores da humanidade parecerem brincadeira de criança, pois a barbárie total será o mote dessas lutas, com um tão forte conteúdo iconoclasta e destruidor que pode mergulhar a humanidade num longo período de descontrole e trevas, com a desorganização de todo o aparelho de controle social, com a destruição de conquistas longamente acalentadas. E isso atrasará por alguns milênios a capacidade civilizatória do homem. Assim, não vejo saída senão a adoção, e isto dentro do mais breve espaço de tempo possível (no máximo, em um ou dois séculos), de políticas sociais de inclusão e de controle da quantidade de miseráveis no mundo. Isso porque eu acredito que, não havendo possibilidade da igualdade absoluta, sempre haverá miseráveis. Mas esses devem permanecer na cota dos que não se integram, dos marginalizados, dos que se mantêm, por motivos tribais, religiosos, culturais, em oposição à idéia de viverem num mundo em que se acham deslocados. No entanto, esses bolsões de pobreza e miséria, que constituirão uma exceção, poderão ser controlados através de políticas sociais que não permitam que eles cresçam e ameacem a sociedade. Serão os excluídos de um quase paraíso, mas, adotados pelas populações mais abastadas, terão o seu direito de exclusão respeitado e, de certo modo, sobreviverão, como um resquício de um mundo antigo, arcaico e cruel. Serão anomalias consideradas “normais” e assimiladas pela sociedade.
Escrito por Isaias Edson Sidney às 12h08
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59. O tecido social forma-se a partir da harmonia entre as diversas camadas que o compõem, formando uma malha harmônica de interdependência e de inter-relações. Há espaço para determinadas degenerações, como a brutalidade, o estupro, o assassínio, porque esses atos são parte, ainda, da natureza animal do homem, de sua carga genética através dos tempos. E muito tempo correrá ainda para que esse tipo de herança se esvaia e se torne uma lembrança dos tempos tenebrosos em que ainda vivemos. Mas, mesmo nesses tempos, há um certo nível de crimes que a sociedade assimila, o que poderíamos chamar de uma certa “normalidade”. No entanto, quando esse nível atinge números assustadores de violência, é que o tecido social se acha corrompido, não por um mal, mas por injunções de crescimento populacional, miséria, falta de perspectivas de vida, falta de princípios éticos que refreiem os instintos de violência. O século vinte foi o século em que mais se matou, na história da humanidade. Não apenas nas duas grandes guerras que o marcam para sempre, mas também em milhares de outros pequenos conflitos regionalizados, com um índice absurdo de massacres, genocídios, assassinatos, perseguições. E também foi o século em que a humanidade atingiu picos de crescimento populacional. O mundo entrou em processo de desequilíbrio, porque o homem não está preparado para conviver com o outro em tão grande quantidade. É como se tivéssemos num pequeno jardim um efervescente surto de plantas e, de repente, começassem a surgir de todos os pontos ervas daninhas a atacar as demais plantas e destruí-las. Essa explosão de ervas daninhas é resultado, ao mesmo tempo, do excesso e da necessidade de ganhar território que dê sobrevivência às ervas “naturais” e da necessidade de destruir as que impedem o seu desenvolvimento. É como se as ervas daninhas fossem o câncer usado para destruir as outras, mas que na verdade destrói quem o cria. De uma forma “natural”, a humanidade cria “monstros” (genocidas, assassinos etc), para se proteger do desmesurado crescimento, mas quando esses “monstros”, fruto do descontrole populacional, também começam a crescer descontroladamente, voltando-se contra o tecido que o criou, gerando mais violência, é que esse tecido está irremediavelmente doente. As barreiras éticas foram rompidas, porque eram frágeis, baseadas nos princípios deístas de sobrevivência após a morte e no próprio culto à morte, incentivado por seitas niilistas como o cristianismo, o islamismo, o judaísmo e tantas outras. O direito à vida deixa de ser fundamental, e a morte torna-se elemento de convivência tão próxima e diária, que se torna banal. Um cadáver na rua não mais assusta. Uma bomba que mata vinte também não. E assim, banalizada, a violência cresce em círculos concêntricos, tornando a vida cada vez mais perigosa de ser vivida. Os facínoras perdem a noção dos limites e crêem-se dotados do poder de vida e morte sobre os outros. A sociedade permissiva de quando os crimes estavam sob controle, como acontecimento “natural”, dentro dos limites do tolerável, começa, então, a buscar reações que podem levar a mais violência, como a pena de morte, a perseguição implacável a supostos inimigos, a decretação de leis draconianas. Uma sociedade que se respeita não pode, nunca, ser tolerante com marginais, com aqueles que buscam a destruição de seu equilíbrio. A idéia cristã do perdão é um de seus grandes equívocos. Os “monstros” têm de ser afastados da convivência social e, dependendo de seu crime, para sempre, sem necessidade da pena de morte, que é anti-natural e contra todos os princípios de valorização da vida. Mas, se um indivíduo comete um crime hediondo, não pode haver leis que o libertem após uns poucos anos de prisão, porque um crime contra a vida não pode ser perdoado, para ser repetido. Essa tolerância também é responsável pelo crescimento da violência, tanto quanto a glamurização de certos aspectos anti-sociais, como o uso de drogas proibidas, traficadas sob a complacência de famílias que protegem o seu membro usuário, esquecendo-se de que atrás de cada droga está o crime organizado, violento e anti-social. A armadilha da proibição de drogas alucinógenas ajudou a criar a violência que a proibição pretendia combater. Assim, não há saída para esse tipo de ajuda à violência: quanto mais proíbe, mais se usa e quanto mais se usa, mais se alimenta o crime, num círculo vicioso difícil de ser rompido por uma sociedade preconceituosa e organizada em torno de idéias de pecado, punição, perdão e outros princípios deletérios e destruidores de sua capacidade de julgar os fatos de forma racional. O crime, as guerras e as lutas genocidas levarão o homem a um esgotamento perigoso, pois nesse caso não há distinção de espécies e o homem pode estar destruindo seus melhores genes, o que levaria a um retardamento do processo evolutivo rumo a uma seleção genética natural, que conduzisse o homem a uma situação de melhor equilíbrio e às grandes possibilidades de existência que o esperam no futuro. Para retornar ao equilíbrio, à “normalidade”, há que se estabelecer políticas públicas e sérias de controle da natalidade, de melhoria de condições de vida das populações carentes até à extinção total da miséria, dando possibilidade de sobrevivência a todo ser nasça não importa onde. O esgarçamento das fronteiras nacionais deve ser um elemento precioso na luta pela sobrevivência de uma nova forma de relacionamento entre os povos. Se, por um lado, haverá o fortalecimento de culturas regionais, essas mesmas culturas serão responsáveis pela abertura das fronteiras, pois não se sentirão ameaçadas em sua individualidade pela convivência com as demais culturas do planeta, ao se estabelecer uma relação de respeito mútuo. Embora a noção de país, de pátria, permaneça, estará sobrepujada pela idéia de defesa do globo e das condições de sobrevivência na terra como um celeiro para os homens do futuro. Assim, prevalecerá a noção de homem como um ser terráqueo como intermediário da noção do homem como ser interplanetário, responsável por espalhar a vida ao universo possível de ser conquistado.
Escrito por Isaias Edson Sidney às 10h30
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58. O homem-rebanho sempre necessitou de líderes – religiosos ou leigos. Os religiosos são uma praga que se aproveita da ingenuidade do rebanho para atiçá-lo ao niilismo e, assim, tornar mais fácil o saque. São, portanto, sempre perigosos. Já os líderes leigos, principalmente os políticos, dividem-se em inúmeras classes, mas basicamente se compõem de aproveitadores, a maioria, e de sinceros, uns poucos que existiram ou existem sobre a face da terra. No segundo grupo, pode-se contar nos dedos e cito-os, mesmo com o risco de cometer inúmeros erros de avaliação e de deixar fora alguns que realmente pautaram suas ações em prol do homem: Luther King, Che Guevara, Gandhi... Sim, todos da era moderna. Não foram guerreiros no sentido tradicional do termo (embora Che tenha sido guerrilheiro), não comandaram exércitos e deram a vida por aquilo em que acreditavam. Se tiveram poder, não foi poder político, mas poder de idéias, de vontade de um mundo melhor. Não cultivo admirações por nenhum líder religioso nem conquistador, como Alexandre ou Napoleão. Têm o seu panteão na história em virtude de grandes realizações, não de realizações que se possam aplaudir ou admirar. O sangue escorre de suas consciências. Foram, todos eles, vampiros. Construíram sua glória às custas de sacrifício do homem-rebanho, do homem fraco que necessita de um líder que lhe diga como agir. E dizer como agir implica, quase sempre, dar a vida por aquele líder, não por suas idéias, mas para lhe dar mais poder sobre mais vidas e, assim levar ao limite ambições, conquistas e, claro, o poder de decidir sobre a morte e a vida. É preciso que a história do homem supere a necessidade desse tipo de líder, para deixar de ser homem-rebanho, com destino de escravo, subserviente, sub-homem. O futuro nada reserva para esse tipo de homem, fraco e estúpido, sem consciência de si mesmo e da sua força. A história, também, não se fará com os líderes vampiros, com os homens de alta potência e pouca inteligência para compreender que é necessário construir uma sociedade que supere os instintos animalescos de sangue, para que o homem sobreviva e se constitua no guardião da vida. Os vampiros desejam apenas a morte, cultuam-na como forma de impor sua vontade, seus desejos. Não têm noção da história e não conseguem enxergar dois dias além do seu presente, pois não têm visão de futuro. O seu ódio à vida se transforma no culto à morte, como conseqüência, quase sempre, de um furor religioso misturado a um furor de batalha, de sangue e de sacrifício. Basta de sacrifícios. O homem precisa compreender que não há deuses a quem sacrificar. O bode expiatório já há muito cumpriu o desejo dos carniceiros. A realização de justiça, por mais tênue que seja, não precisa de sofrimento, mas de racionalidade. Os pobres e miseráveis do mundo só desaparecerão quando a razão estiver acima da moral religiosa, política e social. E a razão defende que não há motivos para haver diferenças, a não ser por uma questão histórica e de complexo de subserviência que têm os deserdados. O ser humano não precisa de humilhações para deixar de ser o rato do esgoto de uma sociedade consumista e absurda, que só vê a si mesma, no espelho do capitalismo de ganhos fáceis e de exploração do homem pelo homem. O deixar-se explorar constitui, mais até do que o explorar, num dos fatos mais lamentáveis da trajetória do homem. Significa a desumanização absoluta do ser, como durante a tortura e a sevícia. Significa adonar-se da integridade do outro, anulá-lo e torná-lo coisa. E isso, os grandes líderes vampiros sempre souberam manter. Pois da escravidão é que tiravam o seu poder. E o poder que vem dos fracos é sempre falso poder. Pode ter a duração de suas vidas, mas é sempre um falso poder. Oriundo da força bruta, relega seu detentor ao lixo da história, tornando-o desprezível.
Escrito por Isaias Edson Sidney às 09h19
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[PORQUE EXISTO, EU PENSO...]
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