SANTO DAIME? (conclusão)

- Tudo bem, Mike. O seu discurso até agora tem sentido e eu concordo com ele. Mas o que tem tudo isso com a morte do tal desenhista, humorista e caricaturista, o tal do Glauco? Esse assassinato foi muito lamentado por todos, inclusive por mim...

 

- Pois é: a isso eu quero chegar. Esse Glauco não era um dos líderes de uma seita ligada à ayahuasca? Ao tal do Santo Daime? Esse Santo Daime nada mais é do que um chá de ervas da floresta, um chá poderoso e alucinógeno. Os índios da Amazônia já o conheciam há séculos e dele faziam uso em suas cerimônias.

 

- Você não está querendo dizer que...

 

- Não, eu não quero tirar conclusões. Apenas fazer uma ilação que pode, inclusive, estar errada. Mas foi uma coisa que me passou aqui pela minha cabeça...

 

- Está bem, vamos lá. O que você fez de ilação da ayahuasca e o assassínio do Glauco?

 

- Você sabe que qualquer coisa que comemos ou bebemos tem efeito em nosso organismo. Tem gente que come um camarão e quase morre, porque tem algum tipo de alergia ao camarão. Então, nós consumimos somente aquilo que tem efeito positivo. Uma aspirina pode curar uma dor de cabeça de alguém e pode levar à morte outra pessoa. Então, voltando à ayahuasca: é um chá alucinógeno. Que pode ter efeitos completamente diferentes em muitas pessoas. O rapaz que matou o humorista frequentou a seita da qual ele era um dos líderes. E, segundo a família, não sei se é verdade, ele consumia diariamente o chá. Além disso, tinha problemas psiquiátricos e era usuário de drogas. Você não acha que é um coquetel potencialmente perigoso para uma pessoa só?

 

- É, acho que sim, se tudo isso for verdade...

 

- Eu lhe disse: é só uma suposição. Mas me parece que há uma ligação entre o surto desse rapaz e o consumo da ayahuasca.

 

- Mas o governo liberou essa droga para uso religioso...

 

- Sim, liberou mas fez algumas recomendações bem claras. E uma dessas recomendações é que esse chá não pode de forma alguma ser administrado a pessoas usuárias de drogas e a pessoas que tenham problemas psíquicos, o que era o caso do rapaz assassino. Ora, se ele tomava todos os dias a ayahuasca, é preciso, primeiro confirmar essa informação e, segundo, investigar de onde procedia o chá que ele dizia tomar...

 

- Você tem razão, Mike, embora lamentando a morte de uma pessoa que era, vamos dizer, “do bem”, podemos concluir...

 

- ... que ele pode ter sido vítima de suas próprias crenças, de sua seita, mesmo que não seja ele a pessoa que fornecia ao assassino a droga que lhe provocou um surto psicótico. Essa seita do Santo Daime trabalha num nível de cobrança e controle de seus seguidores muito perigoso, porque seu principal meio de interação com a divindade é uma alucinógeno. Enfim, talvez eu esteja totalmente errado nessas ilações, mas pode haver muito caroço nesse angu. E mesmo que eu esteja errado, tudo o que lhe disse agora há pouco sobre as religiões continua sendo verdade, pelo menos para mim.

 

- Eu concordo com você, Mike, meu caro macaquinho ateu...

 

- Como todos os macacos... como todos os bichos, aliás. Bem, vou dormir que esse papo já me cansou. Até amanhã.

 

E Mike me virou as costas e foi dormir. Fiquei ainda um pouco por ali, a pensar em tudo o que ele me disse. E concluí que o homem é mesmo um ser complicado, cheio de defeitos, ainda preso a tantas metafísicas impossíveis, a tantas crenças absurdas, que não se pode dizer quantos milhares de anos ainda ele há de evoluir, para deixar de ser bárbaro. Para deixar de matar uns aos outros.



 Escrito por Isaias Edson Sidney às 16h45
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SANTO DAIME? (primeira parte)

  

O tempo abrira. Depois da chuva, a noite parecia mais bonita, o quarto crescente até dava o ar da graça e o ar molhado diminuía o desconforto do calor. Saí para respirar um pouco e dei com o Mike me olhando.

 

- Ficou assustado com a chuva? – Perguntei, irônico.

 

- Macacos não gostam de trovões. – Ele me respondeu, sério.

 

- É, sua cara não está nada boa. Vai dormir, Mike, que eu também vou.

 

- Estou sem sono... Você pode me explicar o que houve com o tal desenhista, o Glauco, eu não entendi direito a notícia...

 

- Ele foi assassinado, ele e o filho, por um jovem que invadiu sua casa... Parece que o cara estava em surto psicótico... tomava drogas... e um tal de Santo Daime...

 

- Ayahuasca: eu conheço essa planta.

 

- Puxa! Você conhece? Como? – Estava estupefato, com a revelação.

 

- Coisas de macaco... não interessa como. Só queria comentar algumas coisas. E acho que você pode não gostar, sei lá... não são coisas muito convenientes para os homens...

 

- Ora, Mike, você me conhece há mais de vinte anos e sabe que não tenho nenhum tipo de pré-julgamento de qualquer coisa, principalmente em relação às suas idéias...

 

- Está bem, então é melhor você sentar e ouvir, sem me interromper.

 

Puxei uma cadeira, que está sempre por ali, na lavanderia, e propus-me a ouvir. Mike, antes de começar a falar, pegou ainda um pedaço de banana já descascada e comeu um pouco. Seus olhinhos brilhavam e eu sabia muito bem a que isso podia nos levar.

 

- Bem – começou ele – você sabe que condeno todo tipo de religião. Mas condeno principalmente as religiões, seitas, filosofias ou que nomes vocês, humanos, dêem a organizações que, além do culto a uma divindade, ainda criam um monte de regras que interferem diretamente no dia a dia de vocês. Acredito que essas regras são formas de dominação de mentes, para que os seguidores não abandonem a seita, não abandonem o rebanho. Porque, quanto maior o rebanho de crentes, maior o poder ou maior a riqueza que os padres, bispos, gurus, papas, aiatolás, rabinos ou quantos nomes se apresentem os donos da verdade dessas seitas ou religiões obtêm. Muitos querem mesmo só dinheiro e o poder que o dinheiro lhes dá. Outros querem apenas o poder. Ou o poder sobre as pessoas ou o poder de salvar vidas que, eles acreditam (e são uns pobres de espírito), podem lhes assegurar algum tipo de recompensa diante de seu deus. Mas, no fundo, tudo é ganância, é desejo de poder, é desejo de manter sob sua tutela um rebanho de idiotas, de mentes obscurecidas pela fé que eles lhes incutem.

 

Mike respirou um pouco, comeu mais um pedaço da banana, e continuou.

 

- Marx disse ou disseram por ele que a religião é o ópio do povo. Mas a religião é muito mais: além de ópio, é controle, como eu disse agora há pouco. O crente de todas as religiões (e não há exceção nessa regra: pode haver mais ou menos controle, mas ele sempre existe) tem seu comportamento moldado pelas normas da religião e é marcado com alguns signos de reconhecimento como forma de autoproteção dos membros e como forma de ostentação de uma espécie de orgulho. Ou seja: eu ajo assim, porque sigo tal religião ou seita, e quero reconhecer meus pares na sociedade tanto quanto quero ser reconhecido. E, ao explicitar meu código, eu quero também que outras pessoas me vejam como exemplo e se tornem alvo de meu aliciamento. Porque quanto mais crentes tiver a tal organização, mais poder terão seus chefes, e isso também eu já disse e estou repetindo porque é muito importante que você compreenda esse conceito.

 

E o Mike fez uma nova pausa. Não queria interrompê-lo, mas não resisti.

(Continua acima)



 Escrito por Isaias Edson Sidney às 16h40
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MACACOS NÃO SÃO METAFÍSICOS

 

 

 

Noite quente. Abafada. Havia chovido, e bastante. Mas a madrugada estava escaldante. Não conseguia dormir, mesmo com o ventilador a toda. Saí, para me refrescar. Mike também não dormira. Estava lá, matutando na vida. Puxei conversa.

 

- Dou-lhe uma bala de goma por um pensamento seu – provoquei.

 

Mike adora balas de goma. É parte de sua dieta. Então, de vez em quando é o que ele ganha, não como prêmio: necessidade dele e obrigação nossa, que cuidamos dele. Mas ele não entrou na provocação, não. Continuou calado por um tempo e depois me perguntou:

 

- Você sabe por que os homens têm religião?

 

Era o tema meio recorrente em nossas conversas, a religião. Nunca, porém, aprofundara ou aprofundáramos o motivo por que os homens têm religião.

 

- Tem alguma coisa a ver com a genética? – perguntei.

 

- Aí é é que está o nó – disse o Mike – até agora nada liga a religião a qualquer característica inata do homem e é mais provável que realmente não haja mesmo ligação nenhuma. Pelo menos, de acordo com os mais recentes estudos, que eu li ontem, no jornal,

 

- E que pesquisas são essas?

 

- Seguinte: dois pesquisadores da Universidade Helsink, da Finlândia – vou tentar falar o nome deles, não ria, por favor – Ilkka Pyysiäinen e Marc Hauser...

 

- Até que você se saiu bem com os nomes... e eles nem são tão difíceis assim... – disfarcei, claro, a vontade de rir, mas não podia tirar a concentração do Mike.

 

- Pois bem – ele me olhou feio e continuou – como eu ia dizendo, esses pesquisadores afirmam que a crença em deus ou deuses seria um produto e não a causa de comportamentos sociais.

 

-  O que isso quer dizer, Mike?

 

- Isso quer dizer que o homem não tem princípios éticos por causa da religião. Ele os teria, mesmo sem as crenças religiosas. As religiões, os credos, as seitas é que se apropriam da moralidade intuitiva do homem, para formar seus paradigmas morais. Existem ateus tão altruístas quanto Irmã Dulce, e existem religiosos tão desonestos e antiéticos quanto pessoas não muito religiosas.

 

- Você quer dizer que a capacidade de distinguir o que é certo e o que é errado independe de códigos religiosos? É isso?

 

- Não sou eu que o digo, são esses finlandeses que afirmam. Segundo eles, o ser humano não tem uma propensão a ser religioso, mas sim a buscar causas e propósitos para o mundo ao seu redor – o que acaba, por vezes, por desembocar em alguma forma de religiosidade. Ou seja, a religião é um produto da evolução cultural – e aí entendamos evolução no sentido mais darwinista possível, de transformação, de mutação, não necessariamente envolvendo qualquer julgamento qualitativo – e não de evolução biológica. Se um fenômeno é universal, como a religião, isso não quer dizer que faça parte da biologia humana. Nós, os macacos, por exemplo, não temos nenhum resquício cultural que possamos denominar religião.

 

- Que ótimo! Os macacos não são metafísicos.

 

- Não, nada de metafísica. Isso é uma bobagem apenas humana.

 

- Puxa, Mike, então esses estudiosos finlandeses acabaram demonstrando uma tese que eu sempre defendi: a de que o homem é naturalmente ateu e só a cultura o torna religioso, pois somos bombardeados desde o berço com idéias, sentimentos, orações e cerimônias de cunho religioso?! Isso é fabuloso!

 

- É, sim: é um estudo muito importante, para o homem. No entanto, mereceu reportagens mínimas nos seus meios de comunicação, aliás, a maioria nem citou essa pesquisa. Você sabe como funciona o lobby das religiões...

 

- Como sei! Mas já fico com meu pensamento lavado, vingado, só com o fato de que já se comprovam teses que eu sempre defendi. É duro ser ateu, Mike, num mundo cercado de malucos religiosos, fanáticos que não enxergam um palmo diante do nariz e querem nos impor seus códigos imbecis de conduta.

 

- Puxa, como você está revoltado! – e o Mike caiu na risada.

 

- Muitos me chamam de revoltado, Mike, mas não é revolta não: é muito complicado quando você enxerga a estupidez e não pode impedir que as pessoas sejam estúpidas. Quando se começa a discutir religião com alguém, logo essa pessoa apela ou para a famigerada metafísica, ou seja, para a fé, ou afirma peremptoriamente que a religião é um freio ético para o homem, repetindo aquela bobagem do Dostoievsky – acho que é dele e acho também que essa bobagem não o diminui como escritor – que teria dito: “se não há deus, então tudo é possível”.

 

- Por isso é que nós, símios, não somos metafísicos... nem escritores – ironizou o Mike.

 

- Bem, vou relevar sua ironia, por hoje, depois dessa boa nova que você me trouxe. E vou procurar mais detalhes sobre esse estudo da Universidade de Helsinki.

 

- Vida longa aos finlandeses – devolveu-me o Mike. E vou dormir, que a noite já está bastante esticada.

 

Ainda fiquei por ali matutando um pouco, mas logo o sono veio e só acordei no dia seguinte, quase ao meio-dia, com uma grande vontade de fazer uma revolução ateísta no mundo. Bobagem. Revoluções não levam a nada. Só o pingar lento e tenaz da água através dos séculos é que constrói estalactites e estalagmites. Um dia – quem sabe? – surgirá o homem higiênico, aquele que...

 

Utopias, utopias!



 Escrito por Isaias Edson Sidney às 14h18
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QUE PAPELÃO!

 

Foi essa a expressão com que Mike me recebeu:

 

- Que papelão!

 

Claro, fiquei atônito, pensando que estivesse a referir-se a alguma coisa que eu tivesse feito. Mas, não: era um desabafo contra a palhaçada que foi a Cop – 15, em Copenhague.

 

Palhaçada de muitos palhaços, diga-se de passagem. Portanto, concordei de imediato com ele, com o sempre crítico Mike, o macaquinho que não tem papas na língua. Porém, seu discurso seguinte foi bem mais sensato e menos raivoso do que eu esperava.

 

- Vamos ser realistas – começou ele – esse escândalo todo sobre aquecimento global tem, sim, sua razão de ser, mas não exatamente como dizem os seus cientistas. Há um pouco de exagero na ação do homem.

 

- Você acha que o homem não é o culpado pelo clima da Terra, Mike?

 

- Não é bem assim. Preste atenção. A Terra é um gigantesco organismo vivo, a girar em torno do Sol, com leis próprias que condicionam sua existência. É um organismo extremamente instável. Como a vida humana é curta, e a própria existência do homem neste planeta é relativamente recente em comparação com a história da Terra, os humanos talvez ainda não se deram conta de que há ciclos que, mais ou menos, se repetem. A Terra já foi um inferno de quente e uma geleira total. Chegou, depois, a um certo equilíbrio, que permitiu o surgimento da vida. No entanto, esse equilíbrio – também relativizado pela história do planeta – é razoavelmente recente. E muito delicado. O que pode estar acontecendo é que, de qualquer forma, mesmo dentro desse relativo equilíbrio, a Terra muda, transforma-se, modifica-se. No clima, no movimento das marés, no gelo e degelo de certas regiões, como os pólos. E o que pode estar acontecendo agora é simplesmente – e essa palavra pode ser forte, mas está dentro da idéia de relativização da história da Terra – o início de um novo ciclo qualquer de mudanças. Talvez climáticas. Porque é assim o nosso planeta: ao pulsar de um novo momento, tudo pode acontecer, até a extinção de espécies como nós, os macacos, ou vocês, os humanos, para tudo recomeçar mais adiante, talvez de uma nova forma.

 

Ante a minha cara de espanto, diante de palavras tão fortes, o macaquinho tratou logo de me acalmar.

 

- Desculpe, não devia ter falado na extinção da raça humana, isso é deveras chocante. Só não é mais chocante do que a extinção dos primatas, claro. Mas, continuemos: acho que está em curso algum tipo de mudança natural. Agora, se o homem contribuiu para isso, não há a menor dúvida. Só não saberia mensurar quanto. E o mais importante: o progresso humano tem um preço: quem mais se apropriou dos recursos do planeta, para obter esse progresso, deve, sim, pagar a conta. Porém, não totalmente sozinhos, e isso é um conceito difícil de compreender.

 

- Como assim, não sozinhos? – interrompi, intrigado.

 

- É que os mais pobres precisam se conscientizar de que o seu progresso não pode ter o mesmo modelo dos países mais ricos, ou seja, eles vão precisar inventar um novo processo de superar seus problemas, sem poluir tanto quanto já o fizeram Estados Unidos, Europa e agora a China. Então, eles têm que entrar com essa cota de sacrifício. No entanto, parte do financiamento desse novo modelo é devido aos países ricos, isso não pode ser contestado: é o tal pagamento por conta de tudo o que fizeram de ruim contra a Terra, até agora.

 

- Você tem razão: o princípio é simples, mas o difícil é colocá-lo em prática.

 

- É por isso que, embora tenha me referido ao encontro de Copenhague como um papelão, não acho que tenha sido um total fracasso. Serviu, pelo menos, para despertar nas pessoas, em termos globais, a necessidade de se fazer alguma coisa. Nunca se discutiu tanto o clima, a biodiversidade, o desmatamento, a poluição e o lançamento de gases venenosos na atmosfera, como agora. O povo das ruas já está sentindo que o clima está mudando e o alerta de Copenhague fez a ligação, difícil, às vezes, de compreender, entre a ação humana e a mudança climática.

 

- Certo, não foi um desastre total, mas não houve também nenhum acordo que sinalizasse um início de resolução do problema.

 

- E você queria o quê? Pense bem: reuniram-se 192 nações, com problemas extremamente diversos, com culturas e estruturas de pensamento completamente diferentes, opostas até, representadas por pessoas que têm interesses conflitantes, e você queria que em poucos dias essas pessoas chegassem a um consenso, a um acordo? Era, desde o começo, uma missão muito complexa. O encontro serviu, no entanto, para cutucar os egos dos governantes do mundo e, principalmente, para alertar o povo de que esses líderes precisam se reunir de novo e estabelecer metas que possam começar a ser cumpridas de imediato. Porque o tempo urge, meu caro, e a Terra não perdoa a quem investe contra ela. Os microacontecimentos climáticos poderão se reproduzir em escala planetária: o homem ocupa, por exemplo, as várzeas de um rio e o rio se “vinga” (e aí você coloca todas as aspas possíveis, porque é só uma metáfora) enchendo suas casas de lama e esgoto. A Natureza não tem sentimentos. Tem apenas a si e a suas leis, que homem nenhum pode revogar...

 

- Então, você acha que...

 

- Olha, não acho nada, sabe? – o humor do Mike já havia se azedado. Vou é dormir, que já é tarde. Que vocês humanos – os maiores destruidores da natureza e os maiores interessados em salvar o planeta – se arranjem e tratem de buscar soluções. Afinal, para isso é que se consideram racionais, não é? Boa noite.

 

E lá se foi o Mike para o sono dos justos. Só não é justo, pensei eu, a humanidade toda pagar o preço de algo de que nem todos se beneficiaram. Mas, enfim, já que nos consideramos racionais, que algum dia prevaleça a racionalidade. E que esse dia não seja tarde demais. E fui dormir, também, não sem antes dar uma olhadinha no céu estrelado lá em cima. É sempre bom fazer isso – olhar o céu, a Lua, a natureza – porque a gente nunca sabe quando pode ser a última vez, não é?



 Escrito por Isaias Edson Sidney às 15h42
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DARWIN À LUZ DA LUA

 

 

 

- Se não há criação, não há criador. – Mike, atrás de mim, enquanto observava o nascimento de uma flor, num vaso próximo.

 

- O quê?

 

- Pense comigo – e o Mike sentou-se, olhando para mim, com seus olhinhos redondos, numa pose típica – ao descobrir e enunciar a teoria das origens das espécies, Darwin detonou para sempre com o mito mais sagrado dos deístas: o mito da criação. Deus passa a ser inútil...

 

- Sim, claro, e não havendo deus, não há criação!

 

- Não. É o contrário: não havendo criação, não há mais necessidade de deus.

 

- Para mim, é a mesma coisa, mas... continue... e daí? Aonde você quer chegar?

 

- Você já reparou que, dentre todos os grandes cientistas, o único que não está tendo o ano de seu bicentenário badalado na mídia, como os outros, é o Charles?

 

- É verdade. Não havia me dado conta. Só publicações mais especializadas é que têm comemorado os duzentos anos desse grande cientista.

 

- Grande, não, o maior de todos.

 

- Como assim?

 

- Você já reparou o ódio dos criacionistas a Darwin?

 

- Justificável, não?

 

- Eles conseguem conviver com todas as demais ciências: se a Terra é que gira em torno do Sol, tudo bem – deus fez assim. Se o Universo é complexo, se a Natureza tem leis específicas, tudo bem – são desígnios de deus. Até mesmo com a complexidade da natureza humana ao conviver e guerrear entre si, em sociedades que rosnam umas para as outras, cometendo crimes e genocídios, eles conseguem conviver, já que deus, em sua infinita sabedoria, deu ao homem o livre arbítrio. Mas, com a idéia de que há não criação, como afirma Darwin, que temos todos a mesma origem, espécies que se modificam e se adaptam ao longo de milhões de anos de evolução, isso é demais para eles. Porque mexe com a base de toda a filosofia deísta: a ausência de um criador. E mais do que ausência: ao estudar e compreender o mecanismo da vida, a própria necessidade de deuses é descartada!

 

- Você quer dizer: Darwin libertou o homem...

 

- Exatamente. Darwin traz a natureza para dentro do homem e liberta-o das correntes da metafísica e das filosofias abstratas e absurdas. E mais: o homem deixa de ser a criatura de deus, para tornar-se mais um elo – claro que fundamental – na corrente da vida.

 

- Puxa, Mike, além de filósofo, você está me saindo um poeta...

 

- Bem, a vida é assim: bela, poética, não exatamente como vocês, homens, foram acostumados a ver, mas como Charles Darwin nos apresenta, a todas as raças, sem oposição entre animais e humanos, na luta pela sobrevivência não apenas de cada espécie, mas da permanência da vida neste planeta...

 

- Por isso, devemos cuidar dele, não é, desse nosso planeta tão único no universo.

 

- Se é único, não sei; singular e, talvez, o mais belo, sem dúvida. Vou dormir. Boa noite.

 

E assim, sem mais nada dizer, lá foi o Mike para sua casa, dormir o sono dos filósofos que sabem o que dizem. E eu fiquei por ali, olhando as flores que brotavam, o céu cheio de estrelas, a Lua que despontava, e pensei: o macaquinho tem razão, mais uma vez – ainda não sabemos dar total valor às idéias de Darwin. Seu trabalho é como a Lua: ilumina devagar, mas é esperança dentro da noite. Não há dúvida de que ele é o maior de todos os cientistas... Apesar de todo o ódio do lobby deísta.



 Escrito por Isaias Edson Sidney às 13h27
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ESSES CRISTÃOS!

 

 

A primavera começou com frio. Muito frio. Não quis sair à noite, para conversar com o Mike, encolhido, com certeza, em sua casa, sonhando o sonho dos macacos. Mas, como ele é um macaco muito especial, com certeza seus sonhos deviam vagar por esferas mais complexas do pensamento simiesco, tantas vezes mais sutil que os nossos. Apenas abri a janela, um pouco, para respirar o ar frio, sentir o vento cortante, apreciar a sombra da pitangueira coberta de frutos.

 

Meus pensamentos voaram. Primeiro, pelo silêncio da noite, quebrado aqui e ali por algum ruído distante de viaturas policiais, ou pelo estampido de uma moto. Estava, realmente, silenciosa a noite.

 

Mas não era assim, há pouco. Alguns minutos atrás, minha companheira estava realmente aborrecida com a barulheira de uma igrejinha caça-níqueis que existe perto de casa. Seus frequentadores, como soem fazer em algumas sextas-feiras, estavam em vigília, ou seja, iam orar a noite toda. Claro, para garantir alguns tostões a mais no bolso do pastor, já que é fim de mês e há contas a pagar.

 

Já outras vigílias anteriores haviam perturbado o sono de nossos filhos, que acordam cedo para trabalhar. A companheira, por isso, estava realmente incomodada e resolvera ir lá reclamar com o pastor, o que os fez calar, pelo menos por essa noite. Não havia mais barulho. Temeram a força do seu argumento: a polícia seria chamada, se insistissem.

 

Então, fiquei pensando: que gente terrível são esses cristãos, principalmente esses cristãos novíssimos dessas igrejolas caça-níqueis que se espalham por aí. Seu deus é muito exigente: cobra caro pelas orações, pelas graças concedidas, pelas bênçãos. Do cristianismo dos velhos tempos, ainda resta esse fervor bíblico, rancoroso, cheio de medos, cheio de demônios a espreitar em cada esquina, pronto a saltar sobre as almas e levá-las para o sofrimento eterno. Que só é evitável, dando dinheiro, muito dinheiro, para os pastores.

 

Pensei mais: no tanto que havia estudado as religiões, desde os mitos mais antigos, os deuses primordiais, com suas lutas pelo domínio do Olimpo ou das mentes humanas, seus castigos aos impenitentes, seus ódios aos opositores e aos que desobedeciam às suas regras ou às suas ordens.

 

Foram sempre muito sanguinários todos os deuses que os homens inventaram. Sempre exigiram sacrifícios, em todas as civilizações. Sacrifícios que iam desde o mais simples ramo de flor ao pé de seus vetustos altares até a vida de seres humanos. Cruentos ou incruentos, o sacrifício implicava, e ainda implica sempre, a humilhação humana diante do divino, para satisfação da casta sacerdotal por trás de cada altar, por trás de cada templo, a recolher as migalhas de cada crente para transformá-las em riqueza pessoal e em poder humano, muito humano.

 

E os homens sempre a cumprir vontade dos deuses. Em todos os tempos. Em todas as civilizações. Mas, com mais tenacidade, na era chamada cristã. De miseráveis perdedores, no império romano, tornaram-se vitoriosos contra todos os leões da velha Roma, despontando anos depois com força, poder e ódio, muito ódio, para se vingar de toda a humilhação passada. E eu penso, com sarcasmo: faltaram leões na velha Roma. Que pena!

 

Ah! os cristãos! Sob a pele do cordeiro (tomando deles a velha metáfora), torturaram, mataram,destruíram, impuseram-se. Sempre com humildade, sempre com as falsas demonstrações de bondade, usando e abusando da doutrina de seus fundadores, sintetizadas na pretensa existência de um salvador que morreu pela humanidade numa cruz ultrajante. Por isso mesmo, sempre glorificaram a morte. Afinal, o tal salvador mitificado e mistificado retornou dos mortos e voltará no fim dos tempos para julgar a humanidade e levar os bons cristãos para a salvação eterna, enquanto jogará todos os demais na danação do inferno. Porque merecem as chamas eternas todos aqueles que não o seguiram. Quanta bondade, penso eu!

 

E então, lembro as fogueiras santas. Por qualquer motivo ou por motivos torpes (para assenhorear-se de seus bens, por exemplo), judeus e não judeus foram queimados, acusados de bruxaria, de heresia, de incréus. E como eram bonzinhos, esses cristãos: se o condenado não encontrasse um carrasco gentil que os matasse antes de acesa a pira, queimavam lentamente, o fogo subindo aos poucos, atingindo primeiros os pés, depois as pernas, as coxas, o ventre, numa agonia que durava horas e horas, para alegria das multidões de cristãos embrutecidos pelo cheiro da carne humana, pelos gritos da bruxa ou do judeu que agonizava lentamente, enquanto a casta sacerdotal orava (ou rezava – escolha você a palavra mais de seu vocabulário, ó cristão que me acaso me lê) pela sua alma.

 

Torrava-se o corpo, mas salvava-se o espírito, para gáudio do deus cristão, sempre pronto a perdoar, na última hora, aquele que se arrependesse de pecados muito bem ordenados e escolhidos por ele.

 

Bonzinhos, muito bonzinhos, os cristãos de antanho. Com uma história de perseguições, assassínio, morticínios, torturas e crueldades mil, tudo em nome da fé, que nem mesmo os piores ditadores da humanidade,como Hitler, por exemplo, têm em seu currículo.

 

E hoje estão aí: erguem templos, continuam sendo humildes e bondosos, praticam a caridade com uma pequena parcela do que realmente extorquem de seus seguidores, ficam ricos, têm mansões em Miami e jatinhos para sua pregação aos quatro cantos do mundo, espalham-se como raiz de mandioca, com sua arrogância mal disfarçada em ternos Armani, todos muito bem postos na vida, enquanto os crentes, os seguidores, o populacho grita e berra por salvação em troca do dinheirinho suado que financia a vida nababesca da casta de pastores, de dirigentes que compram e mantêm redes de televisão, de jornais, de revistas.

 

Continuam bonzinhos, os cristãos de hoje. E já que não podem mais acender fogueiras, assar a carne dos não contribuem para o seu botim, atormentam nossa vida com suas pregações histéricas. Quebram o silêncio da noite, para se fazerem ouvir por um deus surdo, mudo, cego, insensível e estúpido que se esconde aonde, hem? Aonde? Talvez não no cu do conde, mas nos cus muito bem lavados desses malditos pastores, bispos e não sei mais quanta hierarquia eles inventam, a tirar nosso sonho para arrancar dinheiro dessa gentalha estúpida e ignorante, que compra a peso de ouro um lugar no céu dos idiotas.

 

Fechei a janela, antes que o Mike acordasse e tivesse eu de lhe dar explicações por incomodá-lo numa noite fria de primavera, quando o vento cortante fazia balançar a copa da pitangueira coberta de frutos. E eu estava muito, mas muito, mesmo, preocupado em que voltassem a berrar os crentes da igrejola caça-níqueis perto de minha casa. Mais preocupado, porém, com a revolta de minha companheira, que poderia voltar a reclamar e não sei, sinceramente, até onde vai o verniz civilizatório dessa gente que tem tão longa tradição de...

 

Melhor parar mesmo por aqui. Boa noite, Mike – ainda balbuciei, pensando no sono de justo de meu macaquinho.



 Escrito por Isaias Edson Sidney às 14h32
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UMA AFRONTA AO ESTADO LAICO

 

 

- Por que você está tão bravo, Mike?

 

Era uma noite fechada, ameaçando chuva. Não pretendia alongar a conversa, mas o Mike parecia preocupado, chutando alguns brinquedos de sua casa, olhando para mim com cara de poucos amigos.

 

- Ora, você não tem visto nem ouvido nada sobre um tal acordo entre o governo brasileiro e o Vaticano?

 

- Ouvi alguma coisa... E daí?

 

- E daí? Você parece besta?

 

- Também não precisa ofender, cara! Que foi que eu te fiz? – perguntei já com um pé atrás de quem ameaça ir embora e deixar o outro a falar sozinho.

 

- Você não me fez nada, mas esse tal acordo está mexendo com meus nervos...

 

E sem que me pudesse dizer mais nada, Mike disparou:

 

- Admiramos ambos ao Lula, o seu governo e tudo o mais. Temos apoiado quase tudo o que ele faz. Mas, isso?  

 

- Isso... isso o quê? – gaguejei, prevendo chumbo grosso.

 

- O Estado brasileiro é laico ou não é?

 

- É, claro que é...

 

- Então, não tem que abrir as pernas para o lobby da Igreja Católica Apostólica Romana, não é mesmo? Esse acordo que tramita no Congresso – e que está em vias de ser aprovado – é um acinte ao estado laico do Brasil. Concede ao Vaticano privilégios absurdos. Não é um acordo entre estados soberanos, porque o Vaticano não é nenhum estado soberano que tenha algum tipo de prestígio internacional ou de poder econômico com o qual precisemos firmar acordos. Aquilo lá é apenas uma prelazia papal e nada mais. Tem o prestígio que o papa da hora granjeie ou amealhe pela sua posição de líder religioso. Nada mais. O Brasil, se firmar mesmo esse acordo com “sua santidade” (e ele pronunciou “sua santidade” com o máximo de ironia que pode um macaquinho atrevido e ateu pode ter), estaremos inaugurando uma “democracia teocrática” das mais vagabundas, em detrimento de nossas leis constitucionais... Isso é um absurdo. Esse tratado é inconstitucional. Você devia mandar toda essa gente ir lamber sabão, no seu blog... Você está marcando touca, e todos os brasileiros também... Eu não posso concordar com tal barbaridade! Quer saber? Vou dormir e vocês, idiotas, que... que... que se lasquem...

 

Tenho certeza de que ele queria dizer uma outra palavra bem mais contundente do que o “que se lasquem”, mas como não é de seu feitio usar palavrões, recolheu-se à sua casinha e foi dormir, deixando-me com cara de idiota e sem ter tempo de responder-lhe que, sim, eu concordava com ele: ESSE ACORDO COM O VATICANO NÃO PODE SER APROVADO E, SE O FOR, DEVE SER DECLARADO INCONSTITUCIONAL PELO SUPREMO (Supremo? Helàs!).



 Escrito por Isaias Edson Sidney às 17h04
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O QUE É, MESMO, A TAL DA BARBÁRIE?

 

 

Calor e chuva. Verão brasileiro. Com direito a inundações e desabrigados. É só o que se vê se ouve nos noticiários da televisão. Assombram-me. Não quero mais ouvir falar sobre isso: saio a ver a Lua cheia. Mike está sério. Não come o pedaço de maçã que lhe dou. Espera. Há um olhar de desconfiança entre nós.

 

- Não gosto desse seu jeito taciturno, provoco.

 

- Não estou taciturno, estou meio desgostoso com vocês, humanos.

 

- Isso não é novidade...

 

- Não, não é... Mas agora o assunto é tão idiota, que fico até envergonhado de tocar nele – o velho Mike de volta.

 

Espero. Sei que vem bomba por aí.

 

- O que é barbárie? – pergunta-me, irônico, o macaquinho esperto.

 

- De novo esse assunto, Mike? Você sabe o que eu penso...

 

- Desculpe, estava fazendo a pergunta para mim mesmo.

 

- Vamos, desembuche: o que o aflige? As guerras humanas? A fome na África ou  a epidemia de AIDS? As matanças do tráfico e as cabeças cortadas de bandidinhos de periferia por policiais que se julgam juízes?...

 

- Não, desta vez, o que me aflige são os seus estudantes, os futuros doutores, aqueles que vão se constituir na chamada elite intelectual desse País...

 

- De que você está falando, Mike? Seja mais explícito.

 

- Estou falando do velho trote. Esse que acontece todo ano, no início das aulas, nas faculdades frequentadas pelos meninos e meninas considerados mais inteligentes de sua sociedade... Está certo, o passar no vestibular é um rito de passagem. Nós, macacos, entendemos muito disso. Quase todas as sociedades têm ritos de passagem. E quanto mais violentos esses ritos, mas primitivas são essas sociedades, pelo menos em minha opinião. Já numa sociedade que tem o desenvolvimento intelectual, científico, filosófico e técnico a que vocês, humanos, chegaram, hoje, qualquer tipo de rito de passagem que implique violência devia (escute bem: eu disse devia, e não deveria!) estar fora de qualquer cogitação. No entanto, seus jovens insistem em trotes violentos e humilhantes, para receber os calouros que entram nas suas escolas superiores. Isso, para mim, é um índice muito claro de barbárie, de estupidez humana. São tradições medievais que já deviam ter sido abandonadas há muito, muito tempo... Por que eles insistem? Por quê?

 

- Você tem toda razão, Mike. É absolutamente impensável que jovens bem nascidos, estudados, educados... – vacilei por um minuto, buscando a conclusão da frase.

 

-... sejam tão absolutamente estúpidos, não é? – concluiu o macaquinho, já mais calmo, mordendo o seu pedaço de maçã.

 

Nada mais havia a dizer. A Lua, lá em cima, convidava-nos à contemplação de sua beleza. Pensei: se esses jovens que aplicam trotes tivessem a sensibilidade de olhar de vez em quando para uma Lua dessas, talvez, quem sabe, fossem menos bárbaros. Mike parece que leu meus pensamentos. Completou:

 

- Só a noção do belo pode tirar o homem da barbárie.

 

E foi dormir. Eu também.



 Escrito por Isaias Edson Sidney às 11h39
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UMA ASSOCIAÇÃO DE ATEUS?

 

 

Verão. Um calor de rachar. Mesmo à noite. Saí. Mike também se incomodava com o calor, por isso encontrei-o acordado. Não tinha assunto específico. Queria apenas refrescar-me. Porém, Mike parecia disposto a provocar:

 

- Você vai participar dessa Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos?

- Como você sabe disso?

- Não interessa. E não responda a uma pergunta com outra...

- Está mal humorado?

- Não, só não gosto desse jogo de esconde-esconde. Afinal, vai ou não...

 

Pegara-me de surpresa o Mike. Não sabia o que responder. O que significa que tinha sérias dúvidas. Tentei explicar:

 

- Olha, sou ateu, você sabe. Mas também não gosto de participar de nenhuma organização, associação, partido político, não importa a tendência. Tenho enorme resistência em ser catalogado como isso ou aquilo...

- Mas parece interessante a proposta deles - interrompeu o Mike. Pelo menos quanto ao fato de lutar por um estado laico e defender os ateus e agnósticos de preconceitos e outras coisas mais...

- Porém, há outros aspectos que me incomodam - foi a minha vez de interromper. Esse negócio de defender direitos e interesses pode transformar a tal associação em uma espécie de partido político ou de seita. Quais são os direitos específicos dos ateus e agnósticos? Precisamos nos constituir em associação para defender que direitos? Acho isso um tanto colado nas inúmeras outras igrejinhas que pululam por aí e depois se transformam em motivos de mais ódio e preconceito, porque acabam constituindo um ideário, uma relação de deveres e crenças... Não gosto disso, não.

- É verdade. E tem este item dos estatutos - apontar o ateísmo e o agnosticismo como caminhos filosóficos viáveis, consistentes e morais... Isso pode virar uma espécie de pregação pelo ateísmo...

- E pregação é tudo o que mais eu odeio na vida, como você sabe, Mike...

- Já vi que você está de prevenção contra a tal Associação, como é a sigla?

- ATEA.

- A sigla é boa, as intenções parecem ser honestas, mas...

- Isso mesmo, Mike, tudo parece muito certo, muito lógico, mas não é. Se a tal Associação tivesse por objetivos apenas dois...

- Promover o estado laico - adiantou-se o Mike.

- Isso mesmo, promover o estado laico, de modo que não sofresse interferências das religiões e dos religiosos... E também defender os ateus e agnósticos dos preconceitos. Acho que seria de bom tamanho.

- Você tem razão... Há uns penduricalhos estranhos nos estatutos. Mas, mesmo assim acho que você devia se associar...

- Acha mesmo?

- Vou dormir - limitou-se a resmungar o Mike.

 

Fiquei ali pelo quintal por mais alguns minutos, pensando no assunto, sem chegar a conclusão alguma. Lembrei-me de que já escrevera algures, talvez neste mesmo blog, que o ateísmo não é uma filosofia, não pode ser constituído em qualquer tipo de associação nem deve ser promovido ou pregado como qualquer outra seita, senão se descaracteriza.. Claro, não tenho compromisso nenhum com a coerência, que pode ser, sim, muitas vezes burra e entorpecedora, mas... Bem, em todo caso, aí está o link da ATEA. Vou aguardar os acontecimentos.

 

http://www.atea.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=46&Itemid=1

 

 



 Escrito por Isaias Edson Sidney às 13h13
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ROLANDO DE RIR

 

 

 

Nossos diálogos têm ficado repetitivos. Por isso, longo é o tempo que passa sem nada a acrescentar a essas conversas. Mas, essa semana foi especial: encontrei o Mike rolando de rir. Nunca o tinha visto assim. Ria e guinchava, lá do jeito dele, como todo macaco deve rir de nós, pobres homens.

 

Não via graça nenhuma. Cheguei, mesmo, a voltar e olhar-me ao espelho, se encontrava algo que lhe desse motivo para rir assim. Resolvi dar um paradeiro naquela farra.

 

- Ou você me diz por que está rindo assim, ou nada de mamão por uma semana!

 

Era o ponto fraco dele, eu sabia. Parou um pouco e me olhou com seus olhinhos redondos. Mas eu sabia que ele continuava rindo... por dentro.

 

- Mamão é commodity? – perguntou-me ele.

 

- Não entendi. Que diabo é isso? Como assim? O que quer dizer?

 

- Ora, você está me chantageando com a falta de mamão. Eu perguntei se mamão é commodity, se está na bolsa de valores.

 

- Você está me gozando...

 

- Claro que estou! Não está todo o mundo histérico por causa da crise dos imóveis americanos? Então, se o mamão que você está querendo me negar também estiver como mercadoria da bolsa, é provável que não o veja por muito tempo...

 

- Ora, que história é essa de bolsa de valores? E por que você estava rindo tanto?

 

- Vou te dizer por quê: a história é bem simples. E muito divertida, também. Vocês, humanos, são muito burros, com esse seu sistema capitalista. Na mata, entre os bichos, também é assim: em cada época, há fartura de uma fruta e escassez de outra. Se todos resolverem só comer o que está falta, isso vai provocar uma encrenca dos diabos. É a lei do mercado. Mas, lá na mata, essa lei é meio que um tanto, como direi, socializada: ninguém fica preocupado com a demanda, porque a natureza, se não houver nenhum desequilíbrio, provê a todos com seus ciclos.

 

- E se houver desequilíbrio?

 

- Muitos morrem. E volta o equilíbrio.

 

- Puxa! Que cruel! – não pude deixar de comentar.

 

- Lei é lei. Não dizem que o seu sistema capitalista é selvagem? É exatamente por isso: se há desequilíbrio, alguns morrem, para a preservação da espécie, já que os sobreviventes serão os mais aptos... Porém, não é o que está acontecendo, não é mesmo? Inventaram, vocês, os loucos, que as grandes, imensas, corporações são as que têm mais chance de sobreviver, não é? O mercado, as incertezas, o clima (você pode chamar do que quiser as más administrações, os contratos de risco, a ganância, o jogo com peças podres) constituem a grande natureza de seu sistema e essa natureza, às vezes prega peças. E desequilibra tudo. Na mata, não há socorro, não há banco central, não há governos bonzinhos... Entre vocês, no entanto, se uma grande corporação, daquelas que, se quebrar, leva um monte de outras, balançar e ameaçar estatelar-se, lá vem um Bush qualquer da vida a meter a mão no dinheirinho dos contribuintes para salvar a dita cuja. E em nome de quê? Do equilíbrio do mercado! Não é engraçado isso? Por isso, morria de rir: um sistema capitalista que se agarra a leis do... socialismo! Embora um socialismo às avessas, claro: salva os ricos, com o dinheiro de todos, inclusive e acho que, principalmente, dos pobres. Não é engraçado?

 

E o Mike voltou a dar risadas, muitas risadas. Deixei o mamão e as demais frutas ali, e fui embora. Não achava a menor graça. Embora, fosse, sim, muito engraçado.

 

Fui ver na internet se havia cotação do preço do mamão...

 

 



 Escrito por Isaias Edson Sidney às 16h51
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UM VÍRUS QUE DEVORA... A TERRA

 

 

 

Tarde de inverno. A primeira. E fria. Mike queria algo para comer e dormir. Normalmente, um pedaço de pão com Nescau Power, o único de que ele gosta. No leite quente. Minha mulher levou-lhe o acepipe e subiu. Fiquei por ali, mais um pouco. Mike me chamou.

 

- Está encrencada essa história de aquecimento global, poluição, destruição das florestas, hem? – disse ele, ainda mastigando com gosto o pão molhado.

- Nem diga, Mike, nem diga. O homem tem sujado demais o planeta e, agora, está difícil limpá-lo.

- Só há uma solução. Não é simples, mas é a única.

- Única? Então você acha que existe uma única solução para a sobrevivência do homem?

- Eu não disse sobrevivência do homem. Estou pensando na sobrevivência do planeta, que vocês chamam Terra.

- Como assim? Você acha que é mais importante a Terra do que o Homem? – minha pergunta foi tão incisiva que, eu acho, ele ouviu a palavra homem com H, maiúsculo.

- É, sim, a Terra é mais importante do que o Homem – Mike também sabia ser irônico, ao acentuar bem a última palavra.

- Quer ser mais explícito?

- Ouça – e ele se acomodou melhor, com aquela paciência que só os macacos têm. Vou tentar resumir a situação.

 

Puxei a gola do casaco para a orelha e preparei-me para ouvir uma longa dissertação, esquecido, talvez, da capacidade de síntese de meu velho amigo. Pois que ele não demorou mais do que uns dez minutos, para dizer o que abaixo se segue.

 

- Lembra os dinossauros? Dominaram a Terra há milhões de anos. E desapareceram. Se foi obra de um meteoro que mudou o clima, não sei. O que sei é que, se tivessem continuado sua existência por mais alguns milhares de anos, teriam destruído a Terra e a si mesmos. Eram vírus. Que comiam demais. Que destruíam demais. E não tinham mais inimigos, predadores que pudessem regular sua população. Dou outro exemplo, por mais cruel que possa parecer: as baleias. Se se procriarem sem limites, tomarão os mares e farão deles desertos de peixes, pois comem demais, destroem demais, porque cresceram muito e não têm mais predadores naturais. A não ser o homem. E o homem, quando as caça e mata, desde que não seja uma matança sem controle, está, na verdade, estabelecendo um certo equilíbrio. Nenhuma espécie que se desenvolveu a ponto de não ter predadores naturais pode sobreviver e tornar-se absoluta. Porque desequilibra o tênue ecossistema de que vive o nosso planeta. Uma espécie absoluta torna-se uma espécie de vírus, de vírus que destrói sem encontrar limites para a destruição. E hoje... Bem, acho que você me entendeu: o vírus da Terra é homem, é a humanidade. Cresceu demais, destrói demais. Nem as guerras, nem as catástrofes naturais, nem a falta de alimentos têm impedido o homem de se multiplicar descontroladamente. Então, a poluição, o aquecimento global e o desequilíbrio do ambiente deverão fazer o serviço sujo, o de conter o homem. O problema, agora, no entanto, é que a Terra está tão dependente da humanidade que, se ela for destruída, como os dinossauros, todo o planeta poderá ir junto. E a evolução das espécies sofrerá danos que demorarão milhões de anos para serem recuperados.

- Então, a única solução é esta? A destruição da humanidade? – o espanto e o desencanto pareceram evidentes em minhas palavras. Mike sorriu, lá do jeito dele, arreganhando os dentes.

- Não, seu bobo, não se pode mais destruir a humanidade, esse vírus que se multiplica e devora a Terra como se ela tivesse recursos infinitos. Trata-se, apenas, de conter o crescimento desordenado da população humana. Uma solução difícil, claro, mas a única: não há recursos suficientes para tantos bilhões de seres humanos. Ou vocês acham um jeito de controlar o crescimento populacional, ou...

 

Ele não concluiu a frase. Nem precisava. Além disso, o frio e a noite já tornavam a minha permanência no quintal muito dolorosa. Mike foi dormir e eu, um dos bilhões de vírus a atacar o tênue equilíbrio da Terra, achei melhor entrar, para assistir, nos telejornais da noite, às notícias alarmantes da derrubada de florestas, para virar carvão; à volta da inflação, por causa da escassez de alimentos; à busca desesperada dos políticos para equilibrar a destruição com crescimento; à descoberta de novas formas de energia... Enfim, a catástrofe anunciada, a encrenca aparentemente sem saída em que se meteu o homem.

 

Que cenário! - pensei, mas os vírus estão tentando reagir. Haverá tempo?

 

 



 Escrito por Isaias Edson Sidney às 17h57
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LUA QUEBRADA

LUA QUEBRADA

 

 

Um professor e sua aluna. Tudo os separa, nada os une. A não ser a paixão. Uma paixão sem limites, vivida com toda a intensidade da experiência e da juventude. Um livro forte, pela emoção, pela cumplicidade, pelo erotismo. Uma história que mexe com todos os sentidos do leitor, até a última linha. Experiência única na Literatura Brasileira, LUA QUEBRADA é um livro imperdível e inesquecível.

 

Autor: Isaias Edson Sidney

 

Publicação da Biblioteca24x7.

 

Só disponível pela Internet, no endereço abaixo (categoria: ERÓTICO).

 

http//www.biblioteca24x7.com.br

 

 



 Escrito por Isaias Edson Sidney às 16h35
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CONSIDERAÇÕES DE UM MACACO SOLTEIRO

 

 

 

O frio bateu forte. Saí um pouco ao quintal, para ver se estava tudo bem com o Mike. Ele me aguardava.

 

- Não sente frio? – perguntei.

- Não tanto quanto vocês, humanos. Repara minha pelagem.

 

Sim, ele está, agora, com uma pelagem mais densa, mais brilhante, preparado para o inverno. Mais bonito, também.

 

- Está com ar preocupado, por quê?

 

Mike não respondeu de imediato. Pegou um pedaço de mamão que lhe entregara, subiu ao lugar mais alto de sua casa, começou a comer e, pouco a pouco, foi-me revelando suas considerações.

 

- Sou um macaco solteiro. Nem conheci minha família biológica.

- Sua família humana sempre o tratou muito bem, Mike. Todos o amam muito, aqui...

- É, eu sei. Não tenho queixas. Mas minha vida contraria o lado grupal de minha raça. Nós, macacos, vivemos em bandos, você sabe.

 

Assenti. E senti que, dessa introdução, algo mais estava piparoteando na cabecinha do Mike. Puxei um pouco mais a gola do casaco e esperei, pacientemente, que ele terminasse um pedaço de mamão.

 

- E respeitamos muito a família. Não há, entre nós, casos de maus tratos a membros da família, depois de um período de adaptação, de percepção e de acolhimento.

- Mas... muitos de vocês enjeitam os que não terão condições de sobrevivência.

- Sim, é uma lei da natureza. Somos assim. Se nasce uma cria defeituosa, a mãe abandona logo esse ser, para não sofrer depois. Não há maldade. Apenas necessidade.

- Onde você quer chegar com esse papo? – provoquei.

- Depois de acolhido, no entanto, o novo membro, todos se revezam na sua proteção. Até que ele ganhe independência. Como entre os humanos, a família é a célula de nossa organização social. Mesmo depois de cada filhote seguir seu destino e constituir sua própria família, os vínculos permanecem, dentro do bando.

- Mas ainda não sei aonde você quer chegar...

- Ouço coisas que me arrepiam. Coisas terríveis andam acontecendo com os humanos. Na família.

 

Arrepiei. Porque percebi que ele estava a falar de acontecimentos muito recentes. Esperei pela bomba que ele aprontava, mesmo com o frio corroendo meus ossos, ainda mais gelado agora.

 

- Vocês, homens, também constituíram sua organização social com base na família. Herança de nós, animais. Que está nos seus genes, nas suas lembranças mais primitivas. E vocês evoluíram para sistemas mais complexos de bandos. Tendo, no entanto, sempre a família por base. Agora, eu noto que estão estarrecidos com certos fatos que parecem acontecer com uma certa freqüência no interior da célula-mater: maus tratos, incestos, assassínios. Indicam a deterioração de um tecido que devia proteger e que se transforma em armadilha.

 

Gelei mais com o gelo de suas palavras do que com o frio da noite.

 

- A família humana é muito cruel. Tem em seu bojo aspectos culturais pervertidos, que se acumularam em milênios de um desenvolvimento canhestro e estranho. Somos, os homens e animais, frutos de evolução. Mas vocês criaram o artifício de imaginar que são anjos decaídos. Eram perfeição e, agora, necessitam reconquistar um paraíso.

 

Passaram pela minha cabeça as crenças todas dos homens, sua luta interna entre o mal e o bem, entre o céu e o inferno, entre deus e o diabo.

 

- Esse conflito – proseguiu o Mike, como lendo meus pensamentos – fez do homem um ser que se equilibra entre forças precárias e contrárias, entre o animal evoluído que verdadeiramente são e o anjo decaído que imaginam ser. E isso, parece, está afetando sua sensibilidade tribal, seu ponto de equilíbrio para conter o lado animalesco e conviver com ele sem precisar desestruturar a célula base, a família. E então, vocês estão descobrindo algo terrível: estão descobrindo que a família humana não é mais o modelo ideal proteção aos novos membros, não é mais a base sólida de sua estrutura social complexa.

- Você está dizendo que o modelo familiar humano não é mais o ideal?

- Sim, isso mesmo. O modelo familiar humano parece estar falido – ele me olhou nos olhos, com uma sombra de tristeza e de vivacidade. – Mas há algo ainda mais aterrador para vocês...

- O que pode ser ainda mais terrível? – o frio da noite entrando pelas mangas e pelas bordas de meu casaco.

- Vocês não têm nada, nenhum outro modelo, para colocar no lugar da família.

 

Baixei a cabeça, levantei a gola e fui para dentro de casa. Ainda ouvi, por algum tempo, os ruídos do Mike a procurar, entre os vários artefatos que ele tem em sua casa, mais algum pedaço de banana ou de mamão, para comer. Só depois de uns dez minutos é que ele aquietou.

 

Eu, nunca mais.



 Escrito por Isaias Edson Sidney às 15h58
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O QUE EU PENSO...

 

 

18.12.07

 

Terça-feira ensolarada em Florianópolis, Santa Catarina. Vinha eu subindo a avenida Governador Ivo Silveira, saído de um grande supermercado, templo de consumo catarinense, em direção ao apartamento de meu filho. Na longa subida, o sol castiga minhas costas, tornando o caminhar um pouco mais penoso. Mas era necessário andar: faria bem às minhas costas doloridas pela idade, pela falta de exercícios, pela inércia, enfim. Vinha absorto, envolvido em meus pensamentos, sem conseguir distinguir muito bem o que é universal e complexo do que é individual e simples (ou, até, simplório) da minha vida. Estivera sentado à mesa da praça de alimentação do supermercado por mais de três horas, primeiro saciando a fome do corpo, depois a fome de conhecimento e de prazer de uma boa leitura. O livro, As Benevolentes, de um autor francês jovem, Jonathan Littell, premiado pelo Goncourt de 2006, um calhamaço de mais de 900 páginas, conta a história (fictícia) de um oficial nazista durante a Segunda Grande Guerra, traz o ponto de vista dos perdedores e provoca reflexões profundas quanto à crença em ideologias poderosas, como o nazi-fascismo e todas as demais ideologias, aí incluídas as religiões. Tem sido de um impacto profundo em mim a leitura desse livro, mesmo que ainda não o tenha terminado, porque merece não a leitura rápida, embora também atenta, de um romance de ficção clássico, mas, por seu ritmo lento de complexidade de narrativa, percorro suas páginas com um pouco mais de lentidão do que o normal. São muitas, muitíssimas, as reflexões provocadas por suas linhas, suas palavras. A questão ideológica, no entanto, ocupa nesse momento de caminhada solitária, todo o meu pensamento. Max Aue, o personagem central e narrador da sua própria vida no interior, no cerne mesmo, do nacional-socialismo hitlerista, é um ser complexo, homossexual assumido para si mesmo, dentro de uma estrutura homofóbica; tem uma relação de amor e ódio à mãe e ao padrasto, culpando a mãe, principalmente, pelo desaparecimento de um pai que é o protótipo do pai ausente; e, para complicar ainda mais seu histórico familiar, cultivou (e ainda deseja manter) uma relação incestuosa com a irmã gêmea. Nazista convicto, faz o que tem de fazer, dedicando-se àquilo que os nazistas eufemisticamente denominam a questão dos judeus, ou seja , simples e burocraticamente exterminá-los, porque assim determina a ideologia do Partido, do Estado Alemão, do Governo hitlerista. Não há paixão nem ódio em suas ações: ele as executa porque acredita estar fazendo o bem à Nação, ao Estado, em cuja weltanshauung ele acredita de todo o coração, como verdade absoluta. E então, fiquei pensando: toda ideologia vencedora (e o nazismo era a ideologia vencedora, na Alemanha, naquele momento, ainda que a guerra não estivesse decidida) adquire a condição de vestal e todos os crimes que a levaram à vitória são automaticamente esquecidos, sendo, ao contrário, muitas vezes, transformados em atos de heroísmo. Em todo herói há, portanto, o santo e o demônio, para lançar mão de uma metáfora poderosa de uma das ideologias vencedoras, a deísta. Mas ainda é cedo para tocarmos nesse assunto, as ideologias deístas. Deixemo-las, por enquanto, num canto qualquer de nossa memória. Talvez venhamos a retomá-la mais tarde. Talvez. Por agora, com o sol a castigar minhas costas, baixo a cabeça, apresso o passo e continuo minha longa subida. E vêm-me pensamentos terríveis e, ao mesmo tempo, tortuosos: se Hitler tivesse vencido? Não é possível, claro, imaginar todas as conseqüências de tal vitória, porque o mundo e a política são tão dinâmicos e complexos que, muitas vezes, os vitoriosos de um dia tornam-se os derrotados do seguinte, e os derrotados, mesmo em minoria, têm seguidamente determinado destinos ou mudado rumos anteriormente combinados e consagrados em leis, tratados e convenções. Então, se o nazi-fascismo tivesse sobrepujado as forças ditas democráticas que se uniram contra ele, é possível especular, apenas especular dentro de milhares de perspectivas sombrias e, até mesmo, otimistas e bonançosas (por mais cruel e absurdo que isso possa parecer) sobre um mundo governado pela cruz gamada do nazismo em que, e isso é ainda mais cruel, após mais de cinqüenta anos, as feridas teriam cicatrizado e, provavelmente, estaríamos comemorando, numa data estipulada por todos os governos que estivessem sob o regime vitorioso, um dia internacional sem judeus no mundo. Um povo inteiro teria sido simplesmente varrido da face da terra, como muitos outros já o foram ou estão em vias de sê-lo, vários jogados na vala da mendicância e do desalento, como os povos indígenas das Américas, só para citar e lembrar uns poucos exemplos. E nós estaríamos comemorando! Cruel. Muito cruel. Mas humano, demasiadamente humano. Porque é assim o homem: apaga a tragédia ou transforma-a em festa. A poderosa ideologia nazi-fascista teria o condão de contaminar de tal modo as mentes e os corações dos homens? Sem nenhuma dúvida, eu digo que sim, que a vitória a teria transformado em verdade quase absoluta. Haveria, é claro (e isso também faz parte da natureza humana, felizmente), bolsões isolados de resistência, formados por células de homens lúcidos e geniais que não se deixam contaminar facilmente pelas palavras bem articuladas de um discurso ideológico que tem nesse discurso, e apenas no discurso, a reconstrução de uma realidade. Porque, agora que meus passos se alongam, para alcançar o topo, o fim da subida, adquiro uma certeza fulminante: uma ideologia é constituída de discurso, de palavras, de nada mais do que palavras. Sua força está na metáfora, na reconstrução alienada e alienante da realidade, num edifício solidamente fincado no embuste, na mentira e na idealização ou falsificação da vida real. No caso da ideologia antijudaica do nazismo, não havia fatos que pudessem contrariar a crença de que os judeus se constituíam no mal a ser erradicado. Desumanizam-se os seres humanos, isolam-se as individualidades, anulam-se os homens, mulheres e crianças para transformá-los, a todos, numa massa difusa a que se prega um rótulo: judeus. E enfia-se goela abaixo de todas as consciências a equação fatal: judeus = mal. Extintos os judeus, o mundo será melhor. Ponto. Está criada a verdade incontestável, impossível de ser desmentida, porque transformada em fé, em crença absoluta. Joga-se na lata de lixo a realidade para criar uma nova realidade, através do discurso. Inverte-se a lógica: não mais se explica o mundo pelas palavras, mas palavras criam o mundo. Assim é com todas as ideologias. E, tremei, ó deístas de todas os cantos, assim também a ideologia cristã criou o cristianismo e assim estão criadas todas as seitas, todas as religiões do mundo. O feiticeiro primordial, num dia de inspiração, em algum momento da história rastejante do homem, decretou: eu vi! E todos acreditaram no que ele viu e ele pôde, assim, desestruturar o racional e recriar uma nova realidade em que tudo é possível. E os deuses caminharam sobre a terra. Deste momento em diante, tudo podia ser justificado. O papa, do alto de sua estupidez, esquece todo o passado de assassínios, de carnificinas, de genocídio, de sofrimento que a ideologia cristã impôs aos homens que discordaram dela, ou simplesmente não a queriam por já terem sua própria ideologia, em todos os cantos da Terra, para exaltar apenas os seus mártires, muitas vezes eles mesmos, esses tristes mártires, assassinos atrozes de seus opositores; esquece os atos covardes de seus padres e bispos nos cantos escuros de seminários vetustos onde impera lei do mais forte e do mais lúbrico sobre jovens (homens e mulheres) abusados e humilhados para se tornarem quase todos, por sua vez, se seguirem o destino que lhes traçaram, também abusadores e carrascos; esquece tudo, o nosso caquético dono da chamada cátedra de Pedro, porque é, simplesmente, uma ideologia vencedora a ideologia cristã. E já no alto da minha longa subida, quando as forças pareciam faltar-me, encontro o alento de uma breve, porém revigoradora, descida. E penso: há judeus no mundo. Embora discorde de sua ortodoxia, de seus usos e costumes, sua existência e resistência constituem para mim a certeza de que o homem, por mais erros que tenha cometido e ainda venha a cometer, deve continuar sua trajetória de altos e baixos, de retas e curvas, contornando ou vencendo obstáculos, à vezes, sendo vencido por esses mesmos obstáculos, por algum tempo ou sendo enganado por séculos e milênios, aparentemente gado em fila no matadouro, mas há sempre entre os milhões de conformados ou enganados aqueles que não se deixam matar sem um grito de liberdade em relação à ideologia prevalente. E somente esse grito, mesmo que pareça um murmúrio num mar de estupidez, é que me faz manter uma centelha de otimismo de que o ser humano ainda poderá sonhar com algum tipo de futuro.



 Escrito por Isaias Edson Sidney às 11h20
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RELIGIÃO É DISCURSO, E NADA MAIS

 

 

 

Estava seco o ar. Calor em pleno inverno. Não conseguia conciliar o sono, como se dizia antigamente. Levantei-me, acendi as luzes do quintal. Mike apareceu, sonolento, de cara feia.

 

- Não quero papo, disse ele, piscando um pouco os seus olhinhos redondos. Vou comer um pedaço de mamão e dormir.

- Nada disso. Estive pensando umas coisas e queria sua opinião.

- Minha opinião, nessa altura da noite, e com esse tempo, de nada lhe valerá...

- Não importa. Ouça, apenas. Se você achar que é besteira, não diga nada. Ou melhor, vire as costas e vá dormir...

- É o que eu vou fazer...

- Não! – foi quase um grito. Mike voltou-se, acomodou-se um pouco e ficou me olhando. Sua fisionomia não era nem de enfado nem de desgosto. Era, apenas, de paciência.

- Está bem... já perdi o sono mesmo.

- Vou tentar ser curto e grosso.

- Grosso você já foi, ao me acordar...

- Não seja ranzinza, Mike... Está bem: ouça. Estive pensando nisto: o deísmo, a crença em deuses, as religiões são apenas discurso.

- Hm.... isso vai acabar no que eu sei em que vai acabar...

 

Ignorei o comentário de Mike. Já estava viajando nas idéias, mas tentei resumir.

 

- Sim, discurso. Quando a bíblia diz: deus criou o mundo, isso não tem nenhum compromisso com a realidade. Temos uma categoria absurda como sujeito e um predicado que não significa abolutamente nada. Como ninguém pode provar a existência de deus, também não se pode provar que ele não existe. Então, deus é apenas uma palavra, um signo, sobre cujo significante eu posso escreveu zilhões de definições, escrever bilhões de tratados, inventar milhões de qualidades ou defeitos. A partir do momento em que assimilo o signo deus, instala-se em minha cabeça um processo desencadeado na pré-história do homem, um conceito de algo que não se pode definir exatamente o que seja, ao contrário, por exemplo, de uma pedra, uma flor, um ente, enfim, concreto, do qual eu tiro características, para defini-lo. Deus, não. Eu aceito características e aponho ainda mais as minhas próprias necessidades de crença e da cultura onde vivo. Então, deus se torna aquilo que eu imagino que ele é, não o que ele possa ou pudesse ser na realidade. Realidade, aliás, que não existe. Porque eu a crio, ela se torna uma verdade. Daí, no predicado cabe qualquer idiotice, como dizer que criou o mundo, ou destruiu a abóbora, ou escravizou a lesma. Tudo se torna possível, a partir da palavra deus: o absurdo cria absurdos, mas chancelado pelo sujeito, todos os discursos são possíveis, desde que se estabeleçam alguns princípíos lógicos. Porque, se eu disser que deus escravizou a lesma, é crível, mas não é lógico. Para tornar esse discurso lógico (e isso é possível), eu preciso criar, inventar uma teogonia para a lesma. Assim, o absurdo passaria não apenas a ser crível, como também lógico. E tudo faria sentido. E uma nova religião poderia surgir, a partir da simples palavra lesma... Entendeu? Por isso, eu digo que religião é apenas discurso. Sem o verbo, não há religião e também não há verba para sutentá-la...

- Espere aí – interrompeu o Mike, o trocadilho sem verbo não não há verba é bom, mas misturar discurso com dinheiro já é forçar a barra...

- É que eu acho que a religião é o maior business que o homem já inventou. Deixe-me explicar...

- Você não vai explicar nada, por hoje. Entendi o que você quis dizer com o fato de religião ser apenas discurso... e você tem razão. Mas deixemos o business para outra ocasião, está bem? Boa noite.

 

Virou-me a costas o macaquinho mal-criado, entrou em sua casinha e eu fiquei mais um pouco por ali, pensando. Mas também o que vinha à minha cabeça, àquela altura, era só mesmo asneira. Como pode ser asneira tudo o que já pensei até aqui. Paciência: melhor pensar asneira do que não pensar nunca, imaginei o Mike dizendo isso, com seu jeito irônico. Fui dormir.



 Escrito por Isaias Edson Sidney às 13h17
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PLANETA AZUL

 

 

 

De tempos em tempos, recebo e-mails contendo fotos da Terra. Fotos maravilhosas, tiradas por potentes câmeras localizadas em satélites. Mostrei algumas delas ao Mike, numa noite qualquer. Reação dele: uh!

- Uh! Mike? Você não acha que nosso planeta é muito bonito, visto assim do espaço?

- Uh! Sim, respondeu ele. O que não quer dizer que não ache belas as fotos. Mas são apenas fotos: a natureza é sempre bela, vista por microscópio ou vista pelas lentes de um satélite. Mas a Terra é apenas um lugar, um lugar para se viver. Há perigos na natureza, e também são belos esses perigos. A vida é que um espetáculo, não fotos de satélite.

- Mas você não acha que a divulgação desse tipo de mensagem não conscientiza o homem de que ele precisa proteger seu habitat?

- Bobagem. O homem, como todo animal, é um predador assumido.

- Isso é puro pessimismo...

- O homem apenas pensa que pode tudo, mas não pode.... a natureza tem suas leis, seus movimentos, que podem não ter nada a ver com a vontade humana.

- Do que você está falando, Mike?

- Estou falando de uma natureza que se modifica a cada instante, que cria e destrói a vida a cada momento, que não pode ser domada: o planeta Terra, onde vivemos, é apenas um minúsculo grão de areia na teia do Universo... Somos menos que nada, na ordem universal. Bobagem querer que o homem se civilize a ponto de salvar o planeta. O homem não pode salvar o planeta, porque a vida não quer ser salva: ela começa e recomeça sempre, em qualquer lugar, em qualquer momento, sem noção de geografia ou de tempo, porque no Universo não há um lugar, assim como não existe um tempo: tudo é um todo contínuo, sem divisões, sem pressa, sem calma, sem nada, apenas é.

- Você está falando por metáforas?

- O homem é apenas um elo na cadeia da vida. Um elo frágil, tão frágil como qualquer molécula. Não existe futuro para a raça humana, como não existe futuro para a vida, apenas presente. Nesse aspecto, até que idolatrar a tal beleza (que é um conceito absurdo) da Terra vista do espaço, pode até fazer um certo sentido, o sentido da ignorância do que seja realmente a vida.

- Bendita ignorância, disse-lhe eu.

 

E ia tentar continuar o diálogo, mas o Mike me interrompeu, de forma brusca e até mesmo puco educada.

 

- Chega por hoje, já nos dissemos asneiras demais: filosofia me cansa. Cosmogonias, então, só servem para ocupar o oco do cérebro, nada mais. Não saber é melhor do que iluminação. Vou dormir. Até amanhã.

 

Fiquei ali, contemplando a cópia das fotos da Terra, olhei para o céu estrelado, tentei imaginar o Universo e também fui dormir. Afinal, aquelas mesmas estrelas que acabara de ver podiam nem mais existir! Sempre que olhamos o céu, vemos o passado. Sempre que vemos o passado, foge-nos o futuro e sempre que nos foge o futuro, pensamos asneiras. Dormir pode ser a fuga de tudo, porque o sono a tudo tranqüiliza. Principalmente nossas inquietações cosmológicas ou cosmogônicas.

 



 Escrito por Isaias Edson Sidney às 13h17
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REFLEXOS DA LUA AZUL

 

  

Na noite seguinte, sentia-me doente, com gripe. Mesmo assim, ao ouvir ruído no quintal, entendi que o Mike me chamava e fui até lá. Levei-lhe um pedaço de bolo de milho, para uma boquinha noturna.

 

- A noite está bonita, com essa Lua, comentei.

- Você ainda está impressionado com a Lua Azul. Esqueça. Esqueça a Lua, as estrelas, a noite que você diz estar bonita. A natureza não é bela. Apenas existe. Beleza é conceito que os homens inventaram, para categorizar coisas.

- O que você está dizendo? Que a beleza não existe? Como assim? E esta noite estrelada? Não é mais bela que uma noite fechada, nevoenta, chuvosa? E um pôr-do-sol? Não é um belo espetáculo?

- Não. A noite fechada, nevoenta ou chuvosa, como você diz, é tão bela quanto uma noite de Lua e de céu estrelado. Ambas existem, porque são necessárias ao ciclo da vida. Não há beleza nem feiúra na natureza: há apenas a natureza a manifestar-se. O olho humano inventou linhas retas e as considerou belas, uma vez. O mesmo olho inventou linhas curvas e as considerou belas, noutro dia. Porque assim é que deve ser, ou melhor, é assim que não  deve ser: tanto existe a linha reta quanto existe a linha curva. Ambas são apenas o que são e nada mais. Arte é apenas a submissão do homem a seus critérios subjetivos. O que existe, na verdade, é a técnica, apenas a técnica, quando se trata de obra humana; mas, na natureza, isso não vale. Na natureza tudo segue como deve ser, em função da vida e da existência. Nada mais.

- Puxa, Mike! Você está meio azedo, hoje...

- Não. Não estou azedo, apenas não gosto da síndrome da Lua Azul, desse maravilhamento que você tem no olhar diante de um brilho lunar que se repete a zilhões de anos, sempre o mesmo e sempre diferente: cada noite uma Lua; cada noite, um olhar diverso. E isso, sim, faz a diferença, não a categorização em: - que bela noite! ou: - que noite horrorosa, que vocês, humanos, fazem.

 

Depois desse puxão de orelhas, até perdi o tesão pela Lua que brilhava lá em cima... Ia pensar: que bela Lua, mas recolhi até mesmo o meu pensamento e fui dormir.



 Escrito por Isaias Edson Sidney às 14h21
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A LUA AZUL

A noite estava clara. Havia, no céu, uma lua sem tamanho. Saí para contemplá-la, pé ante pé, para não acordá-lo, ao Mike.

- Veio ver a lua azul?

Não pude deixar de perceber a ironia na observação do Mike. Eram 31 de maio e a imprensa destacara a segunda lua cheia do mês, a lua azul. Um fenômeno raro, mas totalmente idiota, pois dependente de um calendário anti-natural, anti-lunar, um calendário artificial.

- Você me assustou, seu macaquinho chato!

- Também perdi o sono, retrucou ele. Ouvi tanta bobagem sobre a lua azul, o dia inteiro, que fiquei pensando em como o homem inventa categorias idiotas e cultos absurdos.

- Já vi que você está amargo, hoje...

- Veja: para que eu, um simples macaco-prego, existisse, quantos bilhões de seres nasceram, viveram e morreram? Você tem idéia? Claro que não, mas isto é a vida: um continuum, um bolo imenso a fermentar nas entranhas, nos meandros, nos interstícios de cada célula, de cada ser, de cada espécie...

- Complicou, tudo, Mike... Que história é essa de interstícios? De meandros?

- Eu sou muito grato a você e todos aí da casa, pela minha vida. Muito, mesmo. Já não devia existir desde os primeiros momentos de minha vida, quando fui rejeitado por minha família, com menos de quinze dias...

- Puxa, Mike, que memória você tem!

- Vocês me criaram, cuidaram de mim. Quando fiquei doente...

- Aquele AVC!

- Isso, aquele acidente vascular cerebral teria sido fatal em qualquer outra circunstância. Mas vocês me levaram ao médico, me deram remédios. A medicina dos macacos é muito, muito limitada. Conhecemos umas poucas ervas para dor de barriga, para uma ou outra indisposição. Doença é sinal de morte. Por isso, todo animal doente é abandonado para morrer. Vocês, homens, têm essa grande vantagem: lutam contra a morte.

Mike fez uma pausa, olhou para a lua, comeu um pedaço de mamão. Suas palavras me deixaram comovido. Então, ele continuou:

- Por que vocês, humanos, lutam contra a morte e nós, os animais, não?

Mais uma pausa. Dessa vez, dramática.

- Porque, tornou ele, nós não temos consciência da morte. Só percebemos que vamos morrer, quando estamos morrendo. E aí, é tarde demais. O homem, ao contrário, desde os primeiros vagidos é condicionado, por suas categorias metafísicas, a pensar que é um ser destinado a morrer, porque a vida foi dada por um deus e por ele será levada. Aliás, para o homem, morrer é passar para um outro estágio de existência, no reino desse deus ou de seu inimigo, o satã. Então, o homem vive a vida pensando na morte...

- Talvez seja esse pensamento louco uma das poucas vantagens da crença deísta, interrompi.

- É verdade. Mas não é uma vantagem tão grande como se poderia imaginar: ao viver pensando na morte, o homem, muitas vezes desvaloriza a vida e deixa de viver.

- Você tem razão, Mike. Tornamo-nos visionários de ilusões...

- E como visionários, não percebem esse intrincado jogo de tecer que é a vida. Cada ser vivo é fruto da vida e da morte de bilhões de outros. Há, sim, uma certa permanência, ou eternidade, para usar um termo que você possa compreender, mas é uma eternidade chamada vida, ou seja, eu, um macaco-prego existirei enquanto houver macacos-prego no mundo. Minha existência está condicionada à existência da minha espécie, ao mesmo tempo que eu, um indivíduo, um ser ínfimo no grande oceano da vida (impossível fugir dessas metáforas), também condiciono a existência de minha espécie. Portanto...

- Entendi: você quer dizer que toda vida é importante para a existência da própria vida.

- É. Mais ou menos isso. Mas já estou cansado, vou dormir.

Nem se despediu, o mal humorado Mike, nessa noite de lua azul. E eu fiquei ali, pensando mais uma vez em quão estúpidas são as nossas categorizações metafísicas.  

 



 Escrito por Isaias Edson Sidney às 12h59
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DE MODERNISMOS E PÓS-MODERNISMOS

 

 

 

 

Era tarde da noite. A lua, imensa, brilhava. Tempo bom, temperado. Saí um pouco, para conversar com o Mike. Também ele estava insone.

 

- Uma lua pós-moderna, brinquei.

- Não brinque com uma bobagem dessa, retrucou o Mike. Você não sabe que as palavras têm mais poder que os fatos que elas traduzem?

- Como assim?

- Veja: modernismo e pós-modernismo. São conceitos absolutamente vazios, mas utilizados por todos. O que é moderno? É tudo o que é contemporâneo. Platão era moderno, na época dele.

- Agora é um velho gagá...

- Deixa o Platão brincar lá na república dele, que o buraco é mais... bem, é em outro lugar.

- Explique, não entendi.

- Voltemos ao conceito de moderno: o homem que se diz moderno, só o é em termos tecnológicos, ou seja, há todo um super-aparato de ciência, de cientificismo, que criou uma quantidade absurda de objetos de desejo e de consumo, ao mesmo tempo que buscou facilitar a vida de quem consegue consumi-los, o que é apenas uma parte da humanidade, e não é a maior parte. O homem criou objetos fantásticos, desde o primeiro motor a explosão até o microchipe, que permite multiplicar ao infinito a capacidade humana de interferir no mundo, mas continua baseando sua civilização nos mesmos conceitos niilistas de religiões falidas e filosofias ultrapassadas. Mudou a forma, aquilo que nós vemos, em termos de civilização, mas a barbárie é a mesma da época dos romanos. Esfola-se, mata-se, tortura-se, estupra-se tanto quanto em qualquer outra época. O modernismo humano é só uma questão de jeito de administrar os bens que o homem produz. Nada mais. Então, meu caro, falar de pós-moderno torna-se uma asneira construída em cima de outra. Uma bobagem, apenas uma bobagem.

 

Fiquei um pouco intimidado com a verborragia do Mike, geralmente tão comedido, ou tão pouco disposto a soltar tudo o que pensa assim, num turbilhão. Mas, tentei, assim mesmo, cutucá-lo:

 

- Mas há uma civilização sendo construída...

- Que civilização? A civilização do consumo? A da tecnologia? Tecnologia não significa, absolutamente, civilização. Quando o homem primitivo descobriu as ferramentas, ele evoluiu, sim, em termos de facilidades, mas continuou sendo primitivo por milhares de anos. E esse homem primitivo ainda está muito vivo dentro do homem atual, que se diz civilizado, mas que, na verdade, tem apenas um verniz muito fino de civilidade. Enquanto existir dentro do homem o instinto assassino, não há civilização no seu conceito mais puro. Portanto, esqueça isso de homem moderno, de homem civilizado: existe o homem tecnológico, o homem que usa a inteligência para conquistas fundamentais para a sua história, mas que, ainda, em seu íntimo, não saiu da idade primitiva do cacete e da borduna.

- Como você é pessimista, Mike.

- Eu não sou pessimista. Acredito que vocês, humanos, ainda vão chegar à civilização. Porque já há homens bastante civilizados entre vocês. E não são poucos. Mas ainda minoria. Quando esses homens um pouco mais civilizados se tornarem maioria, quando se implantar de vez a filosofia do respeito à vida humana, ao meio ambiente e a si mesmos, os seres humanos começarão a construir, de verdade, uma civilização. Que não será perfeita, claro, mas onde um homem ou uma mulher poderão, enfim, viver plenamente, sem medo de sair às ruas, sem balas perdidas, sem grandes diferenças sociais, sem a sombra do assassinato e do genocídio...

 

Mike jogou fora um restinho de banana que ele comia, tranqüilamente, enquanto me falava tudo aquilo, virou-me as costas e foi para sua casinha, dormir. Fiquei ali por mais alguns instantes, fitando a lua, pensando em suas palavras. Não havia o que argumentar. Também me recolhi, na minha insignificância de pretenso homem pós-moderno. Hélas!



 Escrito por Isaias Edson Sidney às 15h59
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PAPA É FODA, MUITO FODA!

 

 

 

Noite sem lua. Acendi as luzes e esperei. Logo, ele saiu de sua casa, devagar, com preguiça. Dei-lhe um pedaço de maçã. Não parecia muito animado, mas gostou da fruta. Permaneci calado, não estava muito de conversa, não. Mas o Mike não resistiu:

 

- Só se fala na visita do Papa, hem... que saco!

- Pois é – respondi – o alemão vem aí para ver se consegue manter a igreja dele...

- Manter, só? – ironizou o Mike. Ele vem tentar reverter o prejuízo que os crentes têm dado à igreja... Até santo brasileiro ele inventou!

- Será que ele consegue? – perguntei, assim, meio só por perguntar.

- Vai ser difícil, mas acho que consegue, sim. Já reparou como a mídia, a grande mídia, só fala no cara? Todos os dias, há mais de três meses, eles martelam na cabeça das pessoas que o papa vem aí, que vai acontecer isso, que ele vai ficar não sei onde, que vai comer não sei o quê, enfim, um massacre... É muito poderoso o marketing desse povo. Escreve aí: vai ser difícil, a igreja vai ter de mudar, mas acho quevai vencer a guerra contra os crentes. As igrejas evangélicas são monocórdicas...

- Monocórdicas, Mike, de onde você tirou isso?

- Monocórdicas, sim – retrucou o Mike, sem se importar com meu riso de mofa. Elas têm um discurso muito rasteiro, de salvação, de pagar para se salvar, de tirar demônio das pessoas, não têm sofisticação teológica, não... Já a igreja romana tem mais de dois mil anos de prestidigitação, de enganação, de discurso... Veja: até a famigerada inquisição, que poderia ter acabado com ela, os papas conseguem transformar em algo que pode ser perdoado! E tem mais: o nazismo de Pio XII, as sacanagens dos padres pedófilos, tudo a igreja do alemão acaba abafando, com seus sermões, seus cânticos e sua pregação. Papa é foda, meu amigo, papa é poder acumulado de muitos séculos!

 

Confesso que minha paciência com a mídia, a martelar nossa cabeça o dia todo com a visita desse papa, já havia se esgotado há muito tempo. Então, só me restava concordar com o Mike e ir dormir. Não se pode fazer nada contra um papa. Papa é, mesmo, muito fodão!

 

iesidney@uol.com.br

 



 Escrito por Isaias Edson Sidney às 11h22
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